Monthly Archives: July 2009

Reunião urbana

23 de maio. Trânsito do inferno. Olhando pra frente um mar de luzes vermelhas e olhando para trás um mar de luzes amareladas. Aquele anda e pára que lembra o levanta e senta de igreja, sabe? Os pés acostumam com o movimento. Fazia tempo que não pegava esse tipo de inferno típico da cidade.

A lentidão nem é tão angustiante, é só ligar o rádio e ficar fazendo air drums, como eu faço. Sim, pessoas olham pra mim de um jeito estranho, mas ok, estou no meio do meu solo, me deixe em paz, por favor?

Daí um pouco a lentidão persiste por mais tempo e lá na frente uma aglomeração que todos que vivem nas ruas já viram: um grupo de 10 ou 15 motoqueiros em volta de um outro caído no chão. Perto deles dois carros parados com pisca-alerta ligado. Uma mulher grita desesperada no celular enquanto os motoristas que podem de fato continuar o seu caminho preferem ir devagar quase parando para ver a desgraça alheia. Enfim, a vida segue.

Mas fico sempre curioso pra saber como essa parada louca dos motoqueiros que param para se ajudar se propagou. É quase um clubinho secreto. Só que em vez de eles se reunirem em casas-de-árvore (ou o equivalente do seu bairro ou cidade ou país), eles o fazem na rua mesmo. Na frente de todo mundo, numa espécie de grito visual de “estamos aqui e quer saber? não estamos felizes!”.

Como isso começou? Porque quando um carro bate, os outros param porque um carro é grande e tal, meio difícil não parar, mas quando dá, vira aqui, vira ali, e todos seguem seu caminho, a não ser os envolvidos na parada. Alguém poderia citar a bondade e a solidariedade como motivos. Mas não sei. Pode até ser em parte por causa disso, mas é meio instintivo deles fazerem isso. Sendo culpa do cara caído ou não, eles se juntam. Como se fosse uma resposta automática.

Engraçado esses códigos de conduta não ditos. Existe o dos homens. O das mulheres. O das prostitutas. O dos namorados. O dos casados. O dos divorciados. E também o dos motoqueiros. Será que “baterás nos retrovisores alheios” está nele?

Texto: F. Garrido

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A maldição de nomear.

Bráulios, Floras, Pieras, Lailas e Mários que sofram com as piadas e explicações que devem o tempo todo por exibir por aí um nome desses. Já Lucas, olha só, não tem versão feminina, o que é um adianto quando você está no colégio, não tem plural, não rima com nada vergonhoso e todo mundo entende de primeira. Se bem que, com minha dicção não tão excelente, de tempos em tempos escuto um “o que, Douglas?”. Isso esquecendo os dias em que minha voz oscilava mais do que hoje e de vez em quando rolava um “o que, Lúcia?”. Osso. Mas, no geral, o nome Lucas foi só alegrias.

Essas questões, claro, são tudo o que as mães e os pais não pensam enquanto passeiam pelo livros dos nomes. Por experiência de vida, posso dizer que lá em 1987, Lucas bombava. Todo bebê tinha cara bíblica de Lucas. Resultado disso é atravessar a escola como Lucas Melo, pra diferenciar dos outros 15 que estavam na mesma sala (o carma segue aqui no blog). Tudo bem, nenhum problema. Parece que rola mesmo essa história de tendência de nomes, que alterna os Washingtons, Pedros Ricardos e Júllias Anas Claras com Pedros, Anas e Joãos. Se dei bem.

Pobre é aquela companhia de telefonia AEIOU. E seu brilhante simulador de gastos FALAMAISÔMETRO. Ou a empresa de aviação que fez um concurso para eleger o seu nome – nada como jogar o trampo na mão dos outros – e adotou AZUL, vencedor do embate final com SAMBA, a outra opção. O programa de créditos é o Tudo Azul, em mais uma sacada de criatividade. Se pais, com o carinho que têm pelos filhos, já criam as aberrações que encontramos por aí, o que esperar da galera dando nomes aos projetos, filmes e empresas que colocam no mundo?

Voltando ao assunto TCC, que de vez em quando dá o ar da graça aqui no blog, seria muito bom decidir logo um nome da coisa.  Palavras em inglês, trocadalhos, citações, trechos de música, compilação aleatória de letras, escolha da audiência. Rodo, rodo e não chego a lugar algum. Difícil. Não quero ser pai de Mário, Laila, Piera, Flora ou Bráulio. Nem a pau.

Conectividade

“No mundo de hoje só sobrevive quem está conectado”. Acho que todos ouvimos essa frase vez ou outra… E quem a diz é um grande mentiroso ou quer te manipular. Conectividade é a palavra da moda há quanto tempo? Uma década? Mais até? Desde o advento e popularização da internet?

A verdade, simples e crua, é que cada um faz sua própria conectividade. Ninguém precisa receber emails a cada 30 segundos pelo seu Blackberry ou iPhone. Ninguém precisa ver sua caixa de entrada a cada café com internet wireless que cruza pela cidade. Fazer isso é uma escolha de cada um, como tudo na vida.

Quem vive em função do seu aparelho móvel escolheu ser assim, porque ainda existem (aos céticos: fiquem chocados!), em pleno século XXI, pessoas que não dão a mínima para sequer possuir um telefone celular. E não é um dos modernos. Não tem nenhum, sequer um Motorola StarTAC modelo 95, daqueles em que só dava pra inserir 8 dígitos do telefone, que já preenchiam o display.

Tenho um amigo que não tem celular. Falar com ele? Só ligando em casa ou passando por lá e esperando ele chegar. E a vida dele funciona bem assim. Lembro que ele até tentou comprar um celular, dos mais simples, nada de extravagâncias, fazia e recebia ligações, mandava e recebia mensagens e pronto. Durou 2 semanas… Ele se esquecia de carregar a bateria do coitado. Virou sucata antes mesmo de ser sucata.

Não sei se o tal amigo é realmente desconectado disso, ou prefere assim para manter a sua privacidade intacta. Seu direito de ir e vir sem ser acometido por alguém ligando ou mandando mensagem a cada 5 minutos. Curioso que cada vez mais as pessoas se preocupam com a sua dita privacidade, ao mesmo tempo em que estão cada vez mais “disponíveis”. Orkut, Facebook, Twitter, email, celular. Contas e mais contas, cada vez mais pessoas ligadas de uma forma tênue, recebendo e enviando informações a todo instante.

É  o fim da privacidade plena? Estar conectado significa, em um nível ou outro, estar disposto a ser incomodado? Disposto a receber um SMS na hora errada. Um telefonema no pior momento. Colocar no silencioso é só uma medida temporária.

Ou talvez seja só uma questão  de se adaptar a tudo isso. Aceitar que as relações hoje são mais imediatas, que vivemos numa sociedade acostumada com o “enter” e com o “send”. Que ao apertar essas teclas esperamos uma resposta, uma reação.

No caso do amigo acima citado, esperar a resposta é em vão. Não sei quando ele vai receber o recado, quanto mais responder. Mas todos acabam se adaptando a isso. E de qualquer forma, tudo se resolve, mesmo sem o celular. Nunca passou aperto e, se precisa, existe sempre um telefone público ali na esquina para resolver o problema. Mas e a agenda telefônica?

Caímos aqui em uma outra questão da conectividade: nos tornamos dependentes dela. É difícil encontrar alguém hoje em dia que sabia números de telefone de cor. Porque não precisa, afinal, tudo está a um toque de distância, não?

Tenho outro amigo que decora número de telefone com uma facilidade incrível. Se ele tivesse 5 anos eu diria que ele é um prodígio, mas ele tem 22, então ele só tem uma memória realmente boa. Aperto com ele não existe no quesito “qual o número de fulano, mesmo?”. Ele sabe e nunca erra. E decora ouvindo o número uma ou duas vezes. É realmente incrível.

Penso que se pudesse unir a capacidade de não ligar pro mundo do amigo # 1 com a habilidade quase sobrehumana de decoração de números do amigo # 2, teria aqui o perfeito exemplo de uma pessoa que nunca precisaria de qualquer aparelho conector.

Mas se você não é igual a nenhum dos dois, sugiro que escolha sua própria conectividade. Escolha, aceite, não se importe e seja feliz.

Texto: F. Garrido

E você, joga fora pessoas?

Eu descarto. Você descarta. Eles descartam. E a vida segue. A sociedade do descarte é essa em que vivemos. Lixo, roupas, comida, dinheiro, água. Tudo vai pra algum lugar, mas nunca sabemos exatamente pra onde.

Mas hoje em dia o que se intensifica é o descarte que antes não acontecia. Primeiro o descarte da informação. Se antes filtros eram importantes, para saber e absorver aquilo de importante e útil para cada um de nós, hoje existem cada vez mais filtros maiores, que deixam passar muito mais coisa, embora as vezes pareça que temos acesso a somente as coisas que queremos.

A quantidade de informação que chega no seu St. Google Reader a cada hora é massiva. Se você não fizesse nada da vida, mesmo assim, não teria como olhar todas as coisas que ali chegaram e entender de fato tudo aquilo. Então você passa o scroll por cima, dá como lida e pronto. E o que ficou pra trás? No caso da informação, hora ou outra ela volta pra você. Com aquele seu amigo atrasado, querendo mostrar um link que ele acabou de descobrir. “Old news” você pensa em muitos casos.

Mas pode ser que em alguma oportunidade o link será revelador. Então, até pode se dizer que com a informação rola uma reciclagem. Pode ser que ela venha meio diferente, como papel reciclado é mais escuro, sujo e com um cheiro distinto daquela sulfite branquinha, mas ele vai vir.

Outra questão, talvez muito mais importante, seja o descarte de pessoas. As relações mudam conforme o mundo muda. Tudo é mais frenético, mais acelerado. É difícil o ritmo em que as coisas acontecem. As vezes dá vontade de falar ” hey, sério, tira o pé do acelerador um pouco”.

Na mesma medida que fica mais fácil conhecer pessoas, fica mais fácil se livrar delas. Simplesmente descartar. Apertar o botão de próximo e partir pra outra faixa, outra frequência, outra música. Estamos a caminho de ficar cada vez com menos consideração? Mas antes disso talvez a pergunta que deveria ser feita é: o descarte é de fato ruim nesse caso?

No contexto dessa sociedade que descarta tudo, nada mais coerente que descartar as pessoas, se adaptar que elas existem aos montes por aí. Mas a questão é que muita coisa vem atrelada às pessoas. Sentimentos, memórias, dinâmicas diferentes, gestos diferentes, tudo diferente.

Na mesma medida que o apego excessivo faz mal, o desapego excessivo também faz mal. Não sei se esse momento da sociedade em que estamos seja mais perto do primeiro ou do segundo, porque embora todo mundo viva nisso, não são todos que enxergam ou percebem o mundo dessa forma. Mas o meio termo entre o apego e o desapego talvez fosse o melhor caminho.

Traria com certeza menos sofrimento, traria com certeza menos conflitos.

Mas esse é o mundo que existe. Não acho que ele seja ruim, nem que seja bom, é só o que existe. Adaptação é a palavra. Adaptação ao mundo que nos cerca. Às pessoas que convivem, vão conviver ou foram descartadas. E também as mudanças que invariavelmente ocorrem com a gente. Ir se adaptando, sem medo de mudar e ver no que dá.

Texto: F. Garrido

Ao som de Live 1975-1985 (Bruce Springsteen)

Sobre cerveja, cigarro e café

Não sou apreciador de café. Experimentei quando era menor, não curti o gosto e não gosto do cheiro, que quase todo mundo fala que é bom, mesmo as pessoas que não bebem do líquido escuro. Não sinto falta da parada cafeína no meu sistema, mas as vezes penso que se tomasse café poderia interagir mais com pessoas. Porque café é como cerveja e cigarro: fator de agregação.

É como chegar em um churrasco ou em uma festa e ver todo mundo bebendo refrigerante, caipirinha, bebericando um whisky maroto e daí você vê outra pessoa com uma roda de garrafas ou latinhas vazias ao redor. Logo você cola lá, pega uma gelada e começa a interação daqueles que só bebem cerveja.

Com cigarro é a mesma coisa, num nível diferente. Fumantes são marginalizados. Mas tem sempre um grupinho deles em um canto. Pedir cigarro ou isqueiro sempre pode ser um start para uma conversa.

É claro que as probabilidades do cara da cerveja ou da pessoa com o câncer eminente serem completos idiotas é grande (não porque eles bebem ou fumam, claro que não, mas porque pessoas são assim mesmo, fazer o que?)… ok, mas isso não vem ao caso.

A questão é café e que ele também é um fator de agregação. “Vamos tomar um café?” deve ser uma das frases mais ditas da história Claro que eu posso ir e beber um suco (de limão) ou uma água, mas sei lá. Todos estão bebendo café. Tem tantos sabores, cores, formatos de caneca. Tem com doce-de-leite. Tem com canela. Tem com creme ou sem creme, tem com açúcar ou sem açúcar, tem preto e branco, tem com laranja ou com pimenta, sei lá. Quem bebe café tem muitas opções. E mais chances de conhecer pessoas também. Aumenta a sua extensão por assim dizer.

Talvez um dia desses eu pare num café e beba de fato um maldito café. Será a prova final. Veremos.

Texto: F. Garrido

A cidade sem vagas e com muitos limões

Fala chefia, to olhando pro senhor!

São Paulo é uma cidade dominada por valets. Manos que cobram de você pra parar seu carro na rua, onde você mesmo conseguiria parar, com um pouco de paciência e habilidade na realização daquela complexa manobra conhecida como baliza.

Eu paro neles, financio essa porra toda. Mas tem dias que me sinto estuprado. Se não são os valets são os guardadores de carro. Os manos que se acham donos da maldita rua e pedem um trocado por olhar e proteger seu carro.

Eu queria saber o que acontece se roubam meu carro enquanto ele está com o valet. Ou se cola um ladrão no carro que está bem na frente do guardador. Que inferno.

Traz um com açúcar, por favor?

Eu tenho autismo das bebidas. Quando escolho alguma coisa fico bebendo aquilo por muito tempo. Já foi assim com Coca-Cola de latinha. Suco Dell Valle de uva. Suco Dell Valle de laranja. Suco de laranja da Fazenda. Suco de laranja orgânico. Suco de uva de alguma vinícola do sul do país. Suco de limão da Leco. Chá mate Lipton. Nestea. Gatorade azul radioativo. Gatorade verde fosforecente. Fuck.

Isso sempre rolou em casa. Minha mãe apoia a minha vibe comprando sempre caixas do que eu mais estou gostando de beber no momento. Mas fora de casa foi sempre sussa. Tudo mudava. Cerveja sempre Heineken se possível, mas sucos e refrigerantes sempre mudavam.

Agora estou na vibe de pedir sempre suco de limão. Nada mais fácil que isso. Tem em tudo quanto é lugar mas nem sempre são bons, o que é chocante, afinal, o quão difícil é espremer um limão, bater com água e gelo e misturar açúcar? Enfim. A busca pelo suco perfeito continua. Estou aceitando sugestões.

Texto: F. Garrido

Show no alojamento

hogwarts

Alojamento de Hogwarts, preparativos pra mais um um torneio de quadribol. Hermione, agora pagando de gostosa, deixa a bomba inflar o colchão, enquanto desdobra com cuidado o sleeping bag.

latas

Rony passa cantado “ô Grifinória, maravilhosa, cheia de encantos mil”  e “Ei, Lufa Lufa, olha como eu danço com um pé só”.

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Harry Potter, wasted.

E esse Glastonbury, hein?