E você, joga fora pessoas?

Eu descarto. Você descarta. Eles descartam. E a vida segue. A sociedade do descarte é essa em que vivemos. Lixo, roupas, comida, dinheiro, água. Tudo vai pra algum lugar, mas nunca sabemos exatamente pra onde.

Mas hoje em dia o que se intensifica é o descarte que antes não acontecia. Primeiro o descarte da informação. Se antes filtros eram importantes, para saber e absorver aquilo de importante e útil para cada um de nós, hoje existem cada vez mais filtros maiores, que deixam passar muito mais coisa, embora as vezes pareça que temos acesso a somente as coisas que queremos.

A quantidade de informação que chega no seu St. Google Reader a cada hora é massiva. Se você não fizesse nada da vida, mesmo assim, não teria como olhar todas as coisas que ali chegaram e entender de fato tudo aquilo. Então você passa o scroll por cima, dá como lida e pronto. E o que ficou pra trás? No caso da informação, hora ou outra ela volta pra você. Com aquele seu amigo atrasado, querendo mostrar um link que ele acabou de descobrir. “Old news” você pensa em muitos casos.

Mas pode ser que em alguma oportunidade o link será revelador. Então, até pode se dizer que com a informação rola uma reciclagem. Pode ser que ela venha meio diferente, como papel reciclado é mais escuro, sujo e com um cheiro distinto daquela sulfite branquinha, mas ele vai vir.

Outra questão, talvez muito mais importante, seja o descarte de pessoas. As relações mudam conforme o mundo muda. Tudo é mais frenético, mais acelerado. É difícil o ritmo em que as coisas acontecem. As vezes dá vontade de falar ” hey, sério, tira o pé do acelerador um pouco”.

Na mesma medida que fica mais fácil conhecer pessoas, fica mais fácil se livrar delas. Simplesmente descartar. Apertar o botão de próximo e partir pra outra faixa, outra frequência, outra música. Estamos a caminho de ficar cada vez com menos consideração? Mas antes disso talvez a pergunta que deveria ser feita é: o descarte é de fato ruim nesse caso?

No contexto dessa sociedade que descarta tudo, nada mais coerente que descartar as pessoas, se adaptar que elas existem aos montes por aí. Mas a questão é que muita coisa vem atrelada às pessoas. Sentimentos, memórias, dinâmicas diferentes, gestos diferentes, tudo diferente.

Na mesma medida que o apego excessivo faz mal, o desapego excessivo também faz mal. Não sei se esse momento da sociedade em que estamos seja mais perto do primeiro ou do segundo, porque embora todo mundo viva nisso, não são todos que enxergam ou percebem o mundo dessa forma. Mas o meio termo entre o apego e o desapego talvez fosse o melhor caminho.

Traria com certeza menos sofrimento, traria com certeza menos conflitos.

Mas esse é o mundo que existe. Não acho que ele seja ruim, nem que seja bom, é só o que existe. Adaptação é a palavra. Adaptação ao mundo que nos cerca. Às pessoas que convivem, vão conviver ou foram descartadas. E também as mudanças que invariavelmente ocorrem com a gente. Ir se adaptando, sem medo de mudar e ver no que dá.

Texto: F. Garrido

Ao som de Live 1975-1985 (Bruce Springsteen)

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5 responses to “E você, joga fora pessoas?

  1. talvez eu esteja sendo repetitiva ao falar oq vou falar agora [pq já falei isso antes, só não lembro se foi aqui] mas gosto de ler textos que traduzem várias coisas que eu penso mas nunca teria paciência de passar ‘pro papel’.
    quando eu fiz o twitter, quando começou a bombar, quando eu fui descobrindo mais esse mundinho de muita internet e muita informação a cada minuto, me deu medo. era muita coisa, eu comecei a surtar, ao mesmo tempo que era empolgante dava medo pq era tudo muito rápido e eu não sabia se conseguiria acompanhar.

    mas claro, acostumei. assim como acostumei a usar o google reader [que eu fiz ha pouco tempo e já não consigo mais viver sem ele] e assim como a gente acaba se acostumando com qualquer nova tecnologia ao nosso alcance.

    eu descartei muuuuitas pessoas num simples clique do mouse. mas antes de fazer isso, não sei se las estavam tão ‘encartadas’ assim. talvez esse descarte que vc fala, já seja meio descartável, sabe? as pessoas andam meio descartáveis, por isso fica fácil descartá-las. não sei se estou sendo clara mas…os meus amigos de sempre, de antes desse boom todo da minha vida [principalmente internética] continuam aqui. sempre. eu arranjei outros amigos [sim amigos] e alguns [muitos] amigos descartáveis.
    eu decido o que é e o que não é descartável pra mim.

    tem um amigo meu que trabalha comigo, que sempre me mostra links meio #rosana, sabe? que eu ja vi. dai eu sempre falo: ah eu já vi! e ele fica mó desanimado pq não consegue me mostrar nada novo. mas muitas vezes oq ele me mostra é novo pq as vezes eu já vi o link mas nao li ou não prestei atenção e não percebi que era tão legal até ele me explicar. eu descartei na hora mas ele veio, reciclou, e eu vi que era interessante. hahahaha muito louco isso né?

    desculpa escrever um comentário praticamente maior que seu post
    tenho essa mania irritante de vez em quando
    beijos =*

  2. Se apegar as pessoas de certa forma é fácil, o foda hoje em dia é encontrar alguém que mereça o apego, talvez por isso as pessoas tenham se tornado descartáveis. Já fiz isso com muitas pessoas e já fizeram isso comigo, pelo simples fato de não pensarem igual a mim. Já ri muito fazendo isso, já chorei por fazer contra minha vontade e me arrependi bastante por ter excluido sem perceber pessoas que tinham grande importância pra mim. E pelo fato de eu não conseguir fazer amizades fácil ou então não conseguir ser o suficiente pra agradar as pessoas, eu não sei se deveria continuar fazendo isso! Será o dilema do antes só , do que mal acompanhado?

    ;**

  3. já falei éfe, “Amor Líquido” do Bauman. Tá tudo nas relações pós-modernas cara.

    E não, o inferno não são os outros.

  4. Comprei o “Modernidade Líquida” hoje num impulso, cara. Bruna vai me emprestar “Vidas — Desperdiçadas” (…rs…) e estou esperando a sua boa vontade de me emprestar o “Amor Líquido”. HAuahuaha. Daí terei mais coisas pra dizer e entender melhor.

    E eu nunca disse que o inferno são os outros. Aliás, essa frase eu nunca entendi. Acho meio estúpida até, mas enfim. Você pode me iluminar.

  5. “Vidas desperdiçadas”, na vdd…rs

    E sabe q acabamos ñ discutindo sobre as coisas de percepção… basicamente, p/ vc me lembrar: nossos operadores de percepção devem estar tão doidos c/ a adaptação constante, consequente do hiperestimulo, que a criação de vínculos fica debilitada. S/ vinculo, o descarte é facilitado.
    E é ai q aquela história dos jogos q estávamos conversando entra p/ brindar! voltei pensando nisso, acho q tem mais a ver com jogos de vertigem do que com os agonísticos. Tem influencia dos 2, mas é muito a história da desestabilização, desequilibrio, de estar no limite das certezas, sensação e comportamento q esse modelo de relação virtual leva a replicar.

    Depois falamos +… beijo

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