Monthly Archives: August 2009

weee are the champions, my friend

Meu primo se formou.

Semanas depois da apresentação do tcc, veio a colação de grau pra oficializar o fim do ensino superior. E já começa chata por aí, cerimônia e oficial são palavras que fazem passar o filme do brega na cabeça de qualquer um. E o filme do tédio também. E o do brega X tédio (no final, eles percebem que seu destino é permanecerem juntos).

Lá fui eu, clube chique, Ibirapuera, engravatados, roupinhas de formando, decoração medonha com panos coloridos, flores e tapete vermelho. Lindos cenários para fotografias no fundo do salão.

Entrei, sentei na cadeirinha de plástico-festa-de-formatura com paninho-colorido-de-formatura por cima para disfarçar. A música bombava. Lá na frente, uma mina toda arrumada e um mano igual ao Maradona cantavam só clássicos. Vanessa da Mata aqui, O Rappa ali. No início da coisa toda, uma música religiosa para… não sei pra que. Depois abraçaram de novo a Ivete Sangalo e mandaram ver. Eles e aquele mestre de cerimônias que era louco para falar bonito, emocionar parentes e tornar o momento único.

Careta.

Mas quem vai numa colação de grau e espera um evento interessante, né? Tá certo que é mó desperdício, ainda mais contando que os formandos eram todos de cursos de artes, mas imprevisível nunca foi. O problema é que, não sei por onde começou, mas forma e conteúdo são exagerados, frescos e cobertos por uma pompa podre. Pobres garotos e garotas formandos respiram esse maldito ar solene e começam a se comportar como seus avós terminando a escola de engenharia. Ou bisávos. Ou direito.

Sério, maldição. Pra que aquela história de “foi muito difícil conseguir (…) tantas noites mal dormidas (…) apoio dos colegas (…) conhecimento que vamos usar a vida toda (…)”. Pô, primeiro que a faculdade não é senhora do conhecimento. Depois, tão difícil assim? Noites mal dormidas? Bebedeiras, trabalhos nas coxas, faltas, e a arte de enrolar professores ninguém lembra. Sem desmerecer o feito, que realmente tá lá, mas pega esse diploma, coloca embaixo do braço e vamo aí.

Coroa.

Ponto alto da história é a participação de uma vovozinha simpática, escolhida para ser homenageada. Não entendi direito o porquê, mas tiraram a velhinha sorridente do seu lugar e mandaram a coitada pegar flores lá na frente. Bem do lado do Maradona. Emocionada? Feliz pelo neto? Diz aí, vovó: “Ai, meu deus, olha o que vocês aprontaram comigo”.

No tapete vermelho, caminho de volta: “Socorro. Me salvem!”. Ela via a palhaçada.

E a plateia aplaudia com os olhos marejados a vovó e o buquê caminhando até sua cadeira branca.

Agradecimento do professor blablabla-principal-eu-sou-foda. Champagne no palco. Sobe música. Chapeuzinhos pra cima.

Na saída, consegui tirar minhas últimas fotos pra aproveitar o cenário bonito. E vazei prum jantar delicioso.

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O desapego é o sossego?

Já fui mais apegado às coisas. Lembro que ficava preocupado quando meu irmão ia alugar fita de video-game. Falava pra ele deixar pra ir outro dia, pra tomar cuidado e tudo o mais. Puta bichisse. Ficava na bad quando eu quebrava um brinquedo. Ficava sentido com as pessoas.

Poderia culpar o começo da escalada do desapego no âmago do meu ser ao fato de que quando era pequeno eu ficava sozinho em casa a maior parte do tempo, jogando bola sozinho dentro dela, inventando esportes com nomes pitorescos como “futebol-campo-torto” (sim, era esse o nome e sim, eu era um craque na bagaça! high five pra mim mesmo!), mas na real acho que não tem muito a ver com isso não.

Só comecei a ver que ok, meu irmão podia e voltar vivo da locadora. E podia acontecer de quebrar o brinquedo, mesmo que não desse pra comprar outro. E que jogar um futebolzinho de verdade talvez fosse mais legal que os esportes inventados.

O desapego como forma de vida é uma boa maneira de encarar o mundo. É um mecanismo de defesa muito dos eficazes, assim como o humor sarcástico ou a vadiagem.

Mas até que ponto o desapego é legal e quando ele se torna só uma coisa idiota? Só uma mera projeção de despreocupação extrema?

Não vejo problema nas projeções e até defendo que todos somos projetores numa medida ou em outra. Talvez seja possível ficar tanto projetando alguma coisa que no fim a pessoa acaba por tomar como verdade aquilo. É difícil enxergar a linha que separa aquilo que somos daquilo que queremos que as pessoam achem que somos.

Talvez os tempos hoje sejam assim, a Era dos Despreocupados, a Era do Desapego.

E não estou dizendo que isso seja ruim. Nem bom. É só assim.

Texto: F. Garrido

Músicas felizes – Top 3

Todo mundo tem músicas felizes na vida, não?

Aquelas que te remetem a alguma coisa que traz uma sensação curiosa, familiar. Música feliz não é um nome dos melhores na real, porque não precisa ser necessariamente uma música feliz no sentido que ela é upbeat ou coisa do tipo, mas apenas que ative uma memória específica que te faz sentir bem.

O curioso é que essa memória não é uma memória de fato, de coisa que está no passado, que já foi vivenciada. As vezes é um relance de alo que esperamos que vá acontecer, de lugares que vamos visitar, de experiências que ainda vamos viver. Algo que ainda não existe e pode de fato nunca existir mas que é possível abstrair alguma coisa. Não sei se o nome disso é um sentido ou um sentimento. Sei que essa memória é criada.

Uma discussão muito curiosa, divertida e genial aconteceu numa madrugada no Morro da Coruja. Lugar na USP e reduto de casais no cio e junkies universitários típicos. Regada a cerveja e salgadinhos, a conversa se resumia ao fato de acharmos que a música era a “arte” mais gênio do mundo. Exatamente porque ela faz essa ponte entre ouvir e sentir coisas. Coisas do passado, do presente e do futuro. E pelo fato dela ser praticamente infinita mesmo com uma limitação de blocos básicos (no caso as notas).

Enfim, não lembro mais direito o teor da conversa, mas em resumo: música é vida.

Então, sem nada pra fazer, Top 3 músicas felizes:

Expo ’86 ~ Death Cab For Cutie

My New World ~ Transatlantic

Jigsaw Falling Into Place ~ Radiohead

We walk?

Não curto andar. Ontem fiz aquele passeio a pé pela Paulista. Acho legal, aquele movimento louco, clima ameno, frio com chuva, aquele trombar com pessoas conhecidas nesse mundo pequeno e tudo o mais.

Mas andar cansa, cara. Cansa pra caralho. Quando era menor eu até andava mais. Ia pro colégio, ia pra casa, ia jogar bola, ia comprar balinhas ou sorvete e sei lá mais o que. Mas chega. Minhas pernas se cansam com facilidade, já aceitei isso.

Desci a Peixoto Gomide já pensando na volta e na subida maldita que isso seria. Sim, mentalizei negativamente e o resultado não poderia ter sido outro, é claro: cheguei no carro suado, ofegante, com calor e irritado.

Entrei no carro e sentei no banco pensando “eu pertenço aqui”.

Sei que tudo isso é só frescura da minha parte, que eu devia largar a mão de ser folgado, fresco e sedentário e curtir mais o pavimento dessa cidade, mas quer saber? Alguém inventou as rodas e eu me sinto na obrigação de usá-las!

Tudo se resume a uma questão de perspectiva e costume. Estou bem feliz com o jeito que vejo o mundo da onde estou e como eu faço as coisas, então Ok!

Daqui uns meses dou outro passeiozinho e tudo isso voltará na minha cabeça.

Até lá fico aqui vendo as pessoas correndo da chuva. E não deixo de pensar que andar cansa e molha, cara. Molha pra caralho.

Texto: F. Garrido

Histórias alheias

Todo mundo tem uma boa história que não é sua. São aquelas que começam com um “eu tenho um amigo” ou um “lembro que ele foi…”. Mas existe alguma ética na hora de espalhar esses pequenos contos reais alheios?

Eu sempre fico na dúvida se conto ou não conto. Porque se a pessoa conhece o personagem da parada pode ser que ele, o protagonista, não queria que ele, o ouvinte, ficasse sabendo, seja lá por qual dos milhões de motivos (bons ou ruins) que pode existir.

Por outro lado, se a pessoa não conhece o participante, pode ser que um dia esse encontro aconteça e daí pode vir a frase “ah, é você então que tava sem calça no carro e blablabla”?

Não é uma decisão tão fácil e universal assim. Existem as pessoas que você sabe que nunca vão se encontrar e daí saimos por ai contando tudo o que podemos ou achamos relevante, ainda que o universo e seu senso de humor ainda podem vir te cobrar o preço num futuro próximo ou distante.

Mas acho que sou meticuloso quanto a isso, ao passo que o resto talvez não o seja. Ouvir o espalhar de histórias bizarras de pessoas conhecidas mundo afora me incomoda um pouco, mesmo que não incomode quem por direito é o único que pode se incomodar de fato.

E admito que histórias alheias geralmente são melhores que as nossas próprias. É tipo o jardim do vizinho que é mais verde. Ou as mais gostosas e bonitas que não estão com você. Tudo no fim cai na insatisfação eterna. Até nos contos da vida.

Por isso, um dia ainda conto a história que não é minha da puta que menstruou no carro. Clássica!

Texto: F. Garrido

A história do garoto pontual e irritado que mudou e desmudou

Fernando era um garoto pontual. Sempre no horário desde quando conseguia lembrar que existia. Não gostava de atrasar e odiava quando atrasavam com ele. Quando namorava odiava quando ligava e esperava 10 minutos na porta, mas não achava que isso era culpa específica de uma pessoa, todo mundo atrasava na verdade.

Compulsão por mini planejamentos era uma das características marcantes nele. Talvez não para todos mas dentro de si ele sabia que isso era uma marca das importantes na hora de se auto analisar. “Ok, 15 minutos pro banho, dá pra ouvir 3 músicas, ler uns emails, assistir um pedacinho de Friends e ir pro banho – 15 minutos de banho – 15 pra se trocar e se arrumar – 35 minutos pra chegar”. E lá ia ele para selecionar 3 músicas, ligar a TV no seriado legal e ler uns emails. Não chegava a contar os minutos do banho mas tinha a noção de quanto eram 15 minutos. E no horário previamente combinado lá estava ele no lugar. Geralmente o primeiro.

Fernando era também um garoto facilmente irritável. Não acreditava em inferno astral. Não entendia a lógica de astros influenciando a personalidade ou o humor de alguém. “Se fosse assim, todo dia ia ter um monte de gente na bad suprema, todas do mesmo signo ou coisa que o valha”. Mas desencanou de discutir isso, porque todo mundo simplesmente acreditava na parada e pronto. Aceitou isso como um salto de fé, mais um que ele não conseguia ter, embora de vez em quando pegasse a si mesmo lendo o horóscopo do dia e pensando “fuck, pode ser coincidência só…” e rindo marotamente para si mesmo depois.
Acreditava que dias ruins e dias bons são a essência da vida e que um dos muito ruins perduram por mais que 24 horas, fudendo os dias seguintes, dando a impressão do dito “inferno astral”. Mas é só algo bom acontecer para que tudo volte ao “astral celestial”.

Em uma das semanas que começou com um dia ruim nada parecia dar certo pra ele. Todo mundo atrasava. A comida estava sempre ruim. Horários não batiam. O trabalho não dava certo. Seus aparelhos eletrônicos ia para um lugar melhor. Chutes tortos no futebol. Amigos irritando. Pessoas irritando. Calor irritando. Tudo errado. “Todo cagado” alguns poderiam pensar.

Mas daí Fernando resolveu que de inferno astral, falso mesmo, ele estava cheio. “Ok, universo, pode vir!” ele gritou exaustivamente aos céus numa bela manhã.

E assim Fernando se tornou uma pessoa melhor, menos irritável, mais compreensivo.

Mas tempos depois algo estava errado com ele. Aceitando os atrasos, chegando por último nos lugares, aceitando a falta de tempo dos outros, aceitando o calor, aceitando tudo aquilo que o irritava antes, Fernando realizou que de nada valia somente dias bons perante a falta dos ruins. E assim ele voltou ao que era antes.

Reclamando dos atrasos. Não gostando dos tempos loucos variantes de cada um. Irritável com facilidade. Adicionou até alguns itens a essa lista de “qualidades” que o definiam como pessoa. E foi assim até o fim dos seus dias por aqui. Quando lembram dele sempre falam “Ah, mas ele era tão pontual!”. E ele sorri marotamente seja lá da onde as pessoas que morrem ficam.

Fim.

Texto: F. Garrido

Ao sabor de sorvete com kiwi

Esquina, paranoia delirante

Esses dias resolvi cumprir uma das missões que deveriam ser rotina, mas não são. Se moro do lado do trabalho, por que não sair mais cedo e ir a pé? Convicção de que esse é o certo não me falta, assim como também sobra a preguiça, o atraso e mil outros motivos bestas. Nesse dia, fui bancar o coerente e deixei o carro na garagem. Subidinha até o trabalho, 15 minutos, beleza. No caminho de volta, a paranoia era maior. Sei lá, desde os tempos do colégio ativei o modo “atenção para não ser assaltado” sempre que ando por aí. Dá certo? Nem sempre. Já “perdi, playboy” umas vezinhas. Ainda assim, vou rápido e olhando pra tudo que é lado. Engraçado é que na fúria do ver tudo, você tem certeza que também está sendo observado e que pessoas conversam sobre você. Basta estar acompanhado para perceber que o mundo tem mais o que fazer e nem te nota. Sozinho, não. Enquanto tava lá falando comigo mesmo, fazendo os planos de melhor caminho e analisando tudo e todos, ultrapassei uma galera que andava calmamente pelo bairro. Só essa aí que não rolou.
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Ela apareceu na minha frente ainda longe de casa. Como com os outros, tentei acelerar, dar um passo pra esquerda e mandar um “fui!”. Não rolou. Apertei o passo, ela também. Se existe o código de conduta dos motoqueiros, existe também o código de conduta das ruas. Não era coincidência, ela claramente evitava a minha aproximação. É ruim andar com alguém por perto, principalmente fazendo o mesmo caminho que você. Cheguei próximo, ela fugiu, tipo um rato condicionado. Ok, estávamos andando rápido, ela não parecia ameaçadora, fiquei atrás. Seu trajeto era o mesmo da minha casa. Se ela entrou numa de prestar atenção em mim e acelerar o passo, mal sabia que era ainda pior. Não só estava pensando nela, como tirava fotos. Jogo de paranoias. Ou a minha paranoia projetando uma paranoia nela.

Quase aqui no prédio, e já na certeza que tinha gente na rua percebendo que eu tirava fotos da mina, ela virou. Faltava um quarteirão. Virou. Talvez tenha mudado de direção só pra ver se eu estava seguindo. Ou a casa dela era pra direita mesmo. De um jeito ou de outro, quando passei reto no cruzamento, ficou aliviada. Deve ter se sentido besta. “O mundo tem mais o que fazer e nem me nota”.
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Nós estamos certos, cara. Eles estão nos vigiando. Fotos em anexo.