Monthly Archives: December 2009

Incoerência natalina

Faz tempo que não tenho mais nenhum sentimento especial com a aproximação natalina. Antes, quando pequeno, achava legal e tal. Não mais. A não ser pelas consequências práticas que isso me traz: cidade mais vazia, coisas funcionando até mais tarde, comer cabrito, comer tender e comer cerejas (sim, comer me deixa muito feliz).

Curioso que o Natal é um feriado cristão. Dã, que óbvio, alguns podem pensar. Sim, é bem óbvio mesmo. Mas fiquei pensando que isso traz uma certa incoerência à minha vida. Porque, embora não acredite nessas paradas, eu até falo Feliz Natal para algumas pessoas, compro até uns presentes aqui e acolá. O coerente seria eu simplesmente ignorar a existência disso e só comer meu cabrito em paz, não?

E a incoerência incomoda.

Ainda sucumbo a essa convenção social do dizer Feliz Natal. Se fosse assim deveria sair por ai dizendo Feliz Dia da Consciência Negra, Feliz Dia do Trabalhador, Feliz Dia Sei Lá Do Que. Mas não. É só Feliz Natal mesmo.

Nem sou daqueles que defendem que o Natal é um feriado capitalista, feito para vender mais coisas e tal. Não sou um dos que acham que Papai Noel é um porco do mal (embora curta a música dos Garotos Podres). Só acho ele um velhinho bizarro, com péssimo gosto para roupas. Nunca entendi porque Papai Noel traz presentes e não Jesus himself.

Enfim. O Natal está ai e não há como negar. Pelo menos as luzes que a Prefeitura colocou nas árvores esse ano são mais bonitas, branquinhas e tal. Um feliz e incoerente Natal pra quem está por ai

História da Música Eletrônica

Faz um tempo que eu não escrevo por aqui, se pá. Desde a última vez, muitas coisas mudaram nessa vida —  impressionantemente, eu diria. As pessoas não são mais as mesmas. Vazios foram preenchidos, outros foram criados e vamo aê. Vou finalmente ser um graduado e poder ter cela especial. Meu sonho do futsal chega ao fim, embora a Família dure para sempre. Tenho até um Facebook, ainda que eu não o acesse muito.

Hoje tava por aqui, nessa vida-internáutica-depressiva-de-domingo-à-noite, e uma amiga me disse: “Esse F. Garrido é genial.”, ” Quando você volta a escrever no blog?” e “O que você tá fazendo?”.  Não exatamente nessa ordem, até porque, se falasse assim, eu a chamaria de louca — estilo John Cage — ou de fritada — no estilo TranceMusic (quem sabe você, que lê isso aqui, não entende essa piada no fim do post?). Mas aí eu lembrei do Éfe, com quem há muito não converso direito. Lembrei também do blog, em que há muito não escrevo. E percebi que, embora estivesse estudando no momento da pergunta, isso me fez pensar que a vida é mais doce do que parece, e, por isso, eu devia escrever de novo.

Ela também perguntou “Por que você não escreve mais?”. Tá bom, talvez ela não tenha perguntado, mas faz mais sentido assim pra eu chegar onde eu quero. Eu repliquei: “Porque minha inteligência some no instante em que eu começo a pensar em um assunto, embora ela reapareça com força máxima quando a hora é de escrever sobre esse assunto, assim que ele me é dado”. De fato. Muitas foram as vezes que eu pensei que devia escrever alguma coisa aqui. Pra não ficar tanto tempo ausente. Pra me divertir, porque curto essa vibe da escrita. Pra estabelecer uma relação com essa molecada prafrentex que leva essa blog nas costas. Tava na dívida, de fato. Mas é sempre foda achar um assunto. Os caras enxergam aspectos geniais em situações muito estranhas, como hospitais e telefonemas diversos. Sei lá, pra mim essas coisas passam meio batidas. Na verdade não passam. Mas na hora em que eu penso no que escrever, elas somem. Aí eu deixo pra lá. A vida não parece tão doce assim. Eu tenho coisas a fazer.

Quando eu disse isso, expliquei a situação, minha amiga me disse: “O que tá na sua cabeça agora? O que você tá pensando?”. A resposta taí, no estilo WindowsLive Messenger — o famoso MSN.

Filipe diz:
techno music
Filipe diz:
house, acid, house, trance, disco
Ela diz:
escreva sobre elas ué

Até aí tá tudo certo. Pessoas pensam em bate-estacas diversos, por que não? Eu poderia pensar todo dia. Poderia até ouvir. Quiçá compor alguns. Mas aí eu complementei:

Filipe diz:
to estudando pra prova de musica eletronica, haha

Eu tava mesmo estudando. Tava meio na vibe deprê domingo à noite mesmo. Até porque estudar pra uma prova de segunda-feira é sempre chato e uma maneira meio tosca de terminar um fim de semana que já tinha sido tranquilo demais, como foi esse.

Mas aí eu pensei o quão inusitado devia ser pra alguém “normal” ouvir que house e techno são ítens de resumo para prova. Pensei como é bizarro imaginar alguém sentando numa sala e sendo vigiado para que não cole enquanto versa academicamente sobre a música da balada do dia anterior. História da música eletrônica, meus caros. Minha vida é mais doce do que parece. Eu tinha que escrever de novo. Pump it up. Poperô.

Sobre sorrisos grátis

Mais uma visita surpresa ao hospital. Não é nada grave, ninguém morreu e nada aconteceu. É só pra explicar como todo esse pensamento surgiu. Hospitais são lugares engraçados. Eles colocam grandes placas dizendo que acompanhantes não podem permanecer junto dos pacientes e blablabla. Mas em dias como esse, domingo de noite com pouca gente, tudo é permitido. Onde antes eu não poderia pisar agora eu posso até sapatear se assim eu quiser e souber.

Ok. Isso não vem ao caso. A questão é que estava lá ocupando uma cadeira/maca quando chega um casal com uma filhinha doente, chorando e com cara de resfriada. Óóóuuunnn, tadinha dela. Sim, eu pensei isso. Vendo que não tinham duas cadeiras juntas, levantei, coloquei meu melhor sorriso de simpatia e disse que eles podiam sentar juntos ali.

Os dois agradeceram e sentaram com a menininha, que chorou e fez o diabo pra tomar umas gotinhas na boca (grow up, né?!). Na saída, a mulher levantou e disse um “muito obrigado” sorridente, feliz e sincero. Tudo isso em retribuição ao meu gesto gentil e ao meu sorriso gratuito.

Claro que essa é uma situação que muita gente passa diariamente, ao dar o assento pra velhinha no metro ou no ônibus, ou sei la em qual situação. Mas a questão aqui é que fiquei pensando que sorrir mais pras pessoas alheias faz bem. Não preciso andar sempre com uma cara de mal humor, embora isso possa funcionar muito bem como um charme pessoal. Ser simpático, sorrir, fazer mini boas ações podem te fazer bem. Fazem bem pros outros e te fazem bem, então porque não fazer mais?

Claro que isso é um paradoxo muito louco. Porque é muito mais fácil ser simpático e distribuir sorrisos grátis pra desconhecidos, tipo o casal + filhinha do hospital do que fingir um sorriso praquela colega de trabalho idiota e imbecil, ou o segurança do prédio que se acha no direito de barrar pessoas por falta de um cartão estúpido ou pessoas desse tipo, que dominam essa terra bizarra.

Mas ao mesmo tempo que é mais fácil ser legal com desconhecidos na teoria, criar de fato essa conexão mínima (já que são seus músculos da face fazendo o mínimo esforço) é muito difícil. Falta vontade, falta empatia, falta alguma coisa pra isso se tornar um hábito.

Talvez esteja na hora de quebrar essa barreira. Sorrir mais. Essa é a nova missão. Reporto resultados depois de um tempo.

Tenra infância?

Minhas únicas duas memórias de infância, daquelas vívidas, que sei contar a história direito e tal, são:

– quando meu irmão, numa lutinha idiota, quebrou meu dente da frente com uma joelhada desleal, depois de eu, acidentalmente, ter quebrado os óculos dele. Assim, totalmente desnecessário esse uso de força bruta contra o irmão menor e tal, me fudeu o dente, que ok, nem era permanente ainda, mas mesmo assim. Lembro de chorar mas depois passou e tal. Depois disso nunca mais me envolvi em brincadeiras de mão, porque elas machucam, cara. E elas não levam a lugar nenhum.

– quando eu, no ápice da minha aventura futebolística pelas quadras dos torneios entre os colégios da Zona Leste da cidade me destaquei na gloriosa quadra de ladrilhos do Externato Nossa Senhora Menina (que depois viria a ser palco de um sangrento confronto entre pais de duas escolas, coisa que eu presenciei in loco) e ganhei uma camiseta como melhor jogador de um dos jogos lá.

Pronto. O resto são meros fragmentos de coisas. Não lembro de jogar videogame, não lembro das pessoas direito, é tudo embaçado, como se uma névoa bizarra e escrota tivesse tomado conta da minha memória. Sempre tem uns períodos que eu fico pensando nisso, no fato de não lembrar das coisas. E isso sempre tende a cair pra um de dois lados:

1. Eu to encanando com uma coisa imbecil (grande probabilidade) e que as pessoas que lembram com detalhes vívidos de quando comeram mingau pela primeira vez sentados num cadeirão na cozinha da avó que tinha cheiro de desinfetante são a minoria da minoria da minoria e que a maioria não lembra de merda nenhuma mesmo porque tudo aquilo não importa, são só fatos da sua história nessa parada que chamamos de vida. Não são grandes acontecimentos que te formaram como o ser delicado e simpático que é hoje e sim só a primeira vez que sua mãe, cansada de te dar papinha de maça com mamão, te deu mingau. Simples assim.

2. Aconteceu alguma coisa muito ruim comigo e eu não lembro. Alguém me molestou. Alguém me colocou de cara na privada. Alguém me esqueceu dentro do carro por 12 horas e eu quase morri de calor. Alguém sei lá, fez algo assombroso e tenebroso, que me marcou para sempre e eu tive um bloqueio de memória. Eu nunca pensei que isso existia, que a mente fosse capaz de algo assim, sempre achei frescura, mas sei lá, vi acontecer, então porque isso não pode ter acontecido comigo antes? Nos meus tenros anos? Sei lá, vai saber.

Mas na real mesmo, eu não acho que fui molestado, nem que mingau pela primeira vez não é importante. Eu só não lembro das coisas. Eu não lembro do meu 1º colegial quase que inteiro e isso não faz nem 7 anos, sei lá. Acho que eu tinha coisas mais importantes pra lembrar naquela época.

Não fico super triste de não lembrar da minha infância, mas é que só tenho a impressão que poderia ter boas histórias ali em algum lugar. Mas ok, fica pra próxima. Eu posso sempre inventar umas pra cativar as pessoas. Tipo quando meu irmão foi atropelado por um trenzinho. Opa, pera ai, essa história já tem dono. Fuck…