Monthly Archives: January 2010

tempão

Ele passou a mão na minha bunda, tô puta.

E não é eu-lírico feminino, é uma citação sem aspas.

O cara tava bêbado, foi tomado por seus hormônios e quis ver melhor aquela tatuagem na coxa. Opa, peguei na bunda. E não é um eu-lírico breaco, é uma nota mental hipotética.

bullshit

O que vale é que o cara passou a ser amaldiçoado na nossa mesa. Balança pra cá, balança pra lá, caiu.

Mas tratar esse “caiu” só como “caiu” é uma maldade. O tempo também tem das suas sacanagens, e sabe muito bem se esticar quando é preciso. Ouvi o primeiro barulho, início da queda. Virei a cabeça pra ver. A partir daí, dá pra contar em uns 5 minutos aqueles 2 segundos e meio que vieram depois.

Ele começou tombando em cima da pilha de cadeiras. Vi a última da fila, parecia que iam cair em efeito dominó. Escorregou por elas, não caíram. O amigo do lado tentava evitar o que já estava acontecendo. Continuou rumo ao chão, bateu a parte do lado do corpo no asfalto molhado e em declive. Bateu o cotovelo. Bateu o copo de cerveja. Uma onda de choque que percorreu todo o seu braço. Deu a escorregadinha matadora. Uau.

Fora o senso de justiça,  vingou a mina que teve a bunda tocada, o tempo tem predileção por quedas. Lembro bem quando costuma jogar bola naquela quadrinha toda pintada de verde no meu prédio. A chuva não podia estragar o gol a gol, diz aí. Mas quadras molhadas são a certeza daqueles hematomas que só servem pra mãe dizer um “eu não disse, menino?”. Continuamos a jogar, como em outras tantas vezes. Uma hora, a bola já tava escapando para o lado do adversário, mas confiei na minha velocidade para correr e chutar antes do meio do campo. Cheguei, cara. Ainda na corrida, apoiei o pé esquerdo, que resolveu não parar. Plim, eu já sabia que ia cair.

Plim, sabia que ia cair, vi meu pé esquerdo voar  pela frente do direito. Passou vazado e deixou meu corpo paralelo ao chão. Tive meu momento ACME, parado no ar, de lado, gente olhando com cara de “deu merda”. A trilha sonora fez aquela gracinha, avisando que eu estava preparado para cair. Pronto, bati de lado no chão molhado, um joelho contra o outro. Minha mãe gritou “eu não disse, menino?”.

Procura aí em outro blog, deve ter essa história sob o ponto de vista do cara que tava assistindo ao jogo. Rir do tombo dos outros é mais divertido.

adultos

Eu tava relendo meus posts, com orgulho por ter escrito dois numa mesma semana. Teoricamente eles não têm nada a ver um com o outro. Relações pessoais e futebol. Mas percebi uma coisa interessante: acho que tenho com as pessoas uma relação parecida com a que tenho com o futebol.

No último post falei sobre o quanto desaprovo o siso no futebol. Falei sobre a perda da magia a partir da mudança de olhar, que destrói, de certa forma, a beleza e a emoção pura que vêm dali. Claro que isso tem dois lados, como também disse no outro post. Aproveitando essa ingenuidade, muitos transformam o futebol em um negócio rentável e corrupto às custas do torcedor. E, pior que isso, fazem de otário aquele que é o motivo de o futebol ter se tornado rentável — quem lota os estádios –, fazendo com que sofra as consequências do abuso do poder e do descaso, consequências essas que se materializam em um time ruim e perdedor.

Quando penso assim, me acho meio idiota por me envolver e dar importância para algo que quem comanda nem sempre olha para o meu lado, nem sempre age com reciprocidade à paixão que move a multidão de fãs. Mas, penso, se não enxergar o futebol com paixão, qual será a real serventia dele na minha vida? De jogo sem graça, que não trascende nada, já basta a bocha, a Paciência do Windows. Quero algo que me traga um sentimento diferente a cada contato que eu tenha. Para mim, o futebol é assim. E, para mim, assim também têm que ser as pessoas.

Pessoas que não têm nada a ver comigo — não me encantam de jeito nenhum — não são o problema. Elas são para mim como o salto com vara, o decathlo, a maratona. Não me dizem nada, passam batidas. O problema de verdade reside nas pessoas que são metade do futebol. Pessoas que são o futebol sisudo, pessoas que passam a tratar a vida como meu tio — aquele citado no post anterior, que acha que ganha o time em que os dirigentes roubam menos — trata o futebol. E o pior é que isso não tem a ver com afinidade, não tem a ver com conteúdo. Meu tio mesmo é um grande cara. Posso passar dias me divertindo e conversando com ele. Temos afinidade. E lembro — talvez de maneira distorcida — que um dia ele não era assim. Tanto que me levava aos jogos constantemente, vibrava e sofria com o todo-poderoso. E, percebo, pessoas com a idade dele, que formam a primeira geração que eu consigo ter memórias de como era quando jovem, em geral ficaram assim de uma hora pra outra. Outro tio meu, que adorava música, que me deu minha primeira guitarra, jogava videogame, ria, se divertia e de repente endureceu. Meu pai também, cada dia que passa quer mais dormir cedo e menos curtir as coisas da vida, seja tomar uma cerveja, seja ficar com a família. Percebo essas coisas há tempos, mas elas, por mais perto que estivessem, ainda não me atingiam.

O negócio é que agora são meus amigos que não sofrem mais com o futebol. Perdem a Libertadores e tomam uma cerveja com a mesma empolgação que tomariam se tivessem ganhado. Mais uma vez, não tem a ver com afinidade. São amigos, pessoas que me rodeiam, pessoas que escolhi que estivessem por perto.

Não consigo concluir outra coisa que não “adultecer sucks”. Acho que uma certa hora é inevitável mesmo, você amadurece, fica mais cansado. Mas isso daqui uns 30 anos, né? Por enquanto, isso é uma escolha. E essa escolha faz quem quer brincar de ser sisudo. Como aquelas crianças que querem ser adolescentes e resolvem encanar com o pai e a mãe, descem do carro um quarteirão antes da escola pra chegarem sozinhas.

Lógico que o mundo começa a clamar por essa mudança, mas eu ainda acho que tem que se saber dosar isso aí. Blasé e sisudo com 23 é querer ser hype. Ser assim como eu, acreditar ingenuamente na fantasia é pedir pra ser enganado por dirigente também. Mas eu sei disso, também sofro com o mal, pelo outro lado. Insisto em jogar bola, em não me formar. Insisto em não sucumbir ao mal da rotina. Insisto em não deixar de lado o que faz da vida mais doce, como gritar na arquibancada e sofrer com o futebol. E nessa hora me identifico muito mais com o Gavião ao meu lado, na arquibancada, que talvez não tenha afinidade alguma do ponto de vista intelectual e de interesses, mas que preserva uma visão de mundo que vem ao encontro do que eu penso. Nessa hora, quero ser o torcedor, não quero apurar o balanço de gastos do clube. Quero do meu lado quem vê como eu. Não quero um banco de dados, um monte de boas opiniões, um monte de idéias boas, mas que se diverte com a aventura de se portar com juízo extravagante.

Sei que é possível torcer e sofrer com olhos atentos ao que fazem os dirigentes. Sei que é possível adultecer sem perder as delícias da juventude. Mas como ainda não sei como fazê-lo e como tenho pavor do jeito com que as pessoas ao meu redor têm feito isso, prefiro ser e dividir minha vida com pessoas que sofrem e vibram. No fim das contas, dos amigos que vão e vêm, os que sempre ficam são esses aí, que racionalmente não têm o mesmo potencial que têm outros de serem meus grandes amigos, mas que encantam talvez por se deixarem enganar por qualquer ridículo tirano.

Bando de louco

Eu sempre curto uma preguiça. Mas aí fiquei com preguiça de curtir a preguiça e resolvi me mexer, na última quarta-feira. Não foi uma mudança drástica, tipo começar o TCC. Mas tomei coragem de encarar a fila no Pacaembu, no sol, e comprar um ingresso pra ver o jogo do Corinthians. Sabe como é, Roberto Carlos, Ronaldo, Elias, Fiel Torcida e tudo que engloba o time do povo. Antes que você se pergunte, não, não é exatamente um post exaltando meu time do coração. E que não se preocupem os que detestam o futebol — não quero discutir esquemas táticos, embora tenha algumas coisas pra falar a respeito disso.

O negócio começa exatamente por vocês que não gostam de futebol. Ou pelo  próprio gostar de futebol. Torcer, gritar, sofrer, chorar. Porque, apesar de inúmeras vezes refletir e discutir com os brothers sobre isso, não entendo o que faz pessoas como eu e muitos outros terem a vida afetada por isso. E não é só afetada, é transformada realmente. Gastei um monte de tempo e dinheiro, fiquei no sol, demorei na fila, peguei uma chuva absurda durante o jogo e, mesmo assim, saí mais feliz. E é assim com muitos. Tem gente que vive pra isso, que viaja a cada jogo. Há quem diga que é um bando de desocupados, que é gente que não faz nada da vida, mas eu prefiro olhar com outros olhos. O que será que tem de tão importante no futebol que faz alguém deixar de viver a vida para si mesmo e dedicá-la a um clube? Como diz o hino do Grêmio Foot-ball Porto Alegrense, “até a pé nós iremos para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”. É essa sina, essa devoção que eu não consigo entender, mas consigo sentir. Claro, não sou um torcedor tão fiel como tantos outros. Mas confesso que gostaria.

Meu pai não gosta de futebol. Tem as pernas tortas, como Garrincha, mas sua habilidade é inversamente proporcional à de Mané. É aquele torcedor que se diz palmeirense, mas que “fica feliz por mim” — como diz — quando o Coringão leva a melhor no embate entre os dois. Meu tio, pelo contrário, sempre foi um bom jogador, e, proporcionalmente, um bom torcedor. Sempre me levou aos jogos. Desde quando eu era um pequeno Louco-por-ti-Corinthians. Lembro de ir ver um Corinthians e Grêmio pela Copa São Paulo de Futebol Junior e sair do Pacaembu no meio da multidão sentado sobre seus ombros. Lembro de ver um Corinthians e Goiás em um dia qualquer de semana. 1×1. Gol de Neto, de falta. Nesse dia, aprendi a mentalizar. Ele me disse: “Mentaliza. Vai ser gol. Enxerga a bola entrando.” Acho que não fiz direito. Neto bateu e foi na barreira. Mas o destino insistiu e o juizão mandou voltar a cobrança. Nova chance pra mim e… Gol! Mentalizei. Vi a bola entrando, no ângulo. O gordinho colocou a bola naquele mesmo ângulo, exatamente como previ. Lembro também de pular a catraca num jogo sob chuva forte. Um cara me ajudou. Meu tio me passou por cima e o cara me pegou do outro lado. Essa brodagem é característica de estádio. O abraço com desconhecidos na hora do gol aproxima aqueles que estão unidos pela mesma paixão. Já rolei a arquibancada, num princípio de confusão. Lembro da minha camisa de porta do estádio, tosca, de algodão. Ganhei do meu tio com três anos de idade. Era da Kalunga. Uma estrela só em cima do distintivo alvinegro. Lembro  como veio a segunda estrela: os gols de Marcelinho e Edílson, com passes de Dinei — o talismã da Fiel — marcados na meta da qual eu estava atrás, na numerada do Morumbi, em 23 de dezembro de 98. O Corinthians vencia o Cruzeiro e virava bicampeão brasileiro. “Fica Luxemburgo, você vai ser campeão do mundo”, gritava a Fiel em festa. Na saída, quase não pisava o chão. Flutuava em meio à massa alegre que deixava o palco. Nesse momento, graduava-me em Corinthianismo. Voltava feliz ouvindo o replay dos gols no Rádio AM no Uno do meu tio. A voz de Silvério, distorcida pela interferência do motor do carro, gritava emocionada o nome do Corinthians e me enchia de orgulho e êxtase. Pude ver, nos próximos anos, muitos outros títulos. O campeonato Mundial sobre o Vasco, xingando o Luciano do Valle, que parecia a nós — eu e meu tio — um agourador do nosso título por vir. Chupa Edmundo.

Também chorei muito pelo Timão. Começando por 93 — o Paulistão para o Palmeiras. Minha mãe pegou uma camista branca e escreveu alguma coisa que não lembro, mas era algo incentivando o Timão antes do jogo e que me deixava feliz, no auge dos meus 5 anos de idade. Eu não entendia exatamente o que acontecia. Não sabia o que era prorrogação. Mas tirava onda com o gol do Viola e a imitação do porco na comemoração, no primeiro jogo. Já xingava os Palmeirenses de porcos, fazia embate de musiquinhas de torcida com minhas primas, até então palmeirenses, mas hoje corinthianas. Chorei muito, sabia que era roubado. Expulsaram o Henrique e o Ronaldo. Meu tio estava indignado. Eu não poderia ficar outra coisa que não isso.

Assim foi nas libertadores contra o Palmeiras. Inacreditável. Sofrível. E contra o River? Já era maior, não queria chorar, xingar. Preferia tentar não me importar. Mas não dava. 2006. Naquele momento até apoiava a massa enlouquecida que tentava invadir o gramado. Coelho? Betão? Fuck.

Ainda não entendo por que razão isso é tão grande. Não vou aqui fazer menção ao quão especial é torcer para o time que eu torço, como a Fiel é diferente. Sei que, do mesmo jeito que lembro desses momentos, outros também lembram de seus times. Meus companheiros de blog, saopaulinos como são, devem ter comemorado com seus pais as libertadores e mundiais de 92 e 93. Também devem ter sofrido com a perda da final de 94 para o Vélez. Com certeza sofreram quando o Raí perdeu dois pênaltis contra o Dida, em 99. E a tetra eliminação para brasileiros nas últimas Libertadores. Os palmeirenses também sorriram enquanto eu chorava. Faz parte do jogo, meu tio sempre disse. Agora ele entendeu isso, não sofre mais. Alguém perde e alguém ganha. Para ele, isso está diretamente ligado ao quanto se rouba dentro dos times. Sei lá. Não aprecio esse siso no futebol. Perde a magia. Sei que nos fazem de idiota e isso é revoltante, mas acaba com a fantasia entender o mundo desse jeito, embora a fantasia mascare os maquiavélicos ditadores. Também sei que eu e o Corinthians não temos ligação nenhuma, que se roubarem lá, eu não perco nada, teoricamente. Se ele perder, eu teoricamente continuo igual. Mas é isso que intriga. Eu me importo, eu xingo, me revolto, sorrio, sofro e comemoro. Me arrepio ao ouvir a massa. E ao fazer parte da massa. Talvez seja isso. Se enquadrar, fazer parte do grupo. Ser mais um louco no bando, louco pelo Corinthians. Naquele momento é só isso que você é. Cantar, pular, xingar. Tomar um gol e cantar mais forte, apoiando até o fim.

Mas, sinceramente, o futebol é mais do que sentir-se bem e completo, incluído socialmente. É algo que você sente como seu, mesmo que pareça ensinado. É algo que você tem orgulho sem saber bem a razão. Porque não é racional. Não é pra entender, talvez. É pra sentir. Não sabem o que perdem aqueles que veem um retângulo com 22 caras correndo atrás de uma bola e milhares de otários pagando pra olhar.

Corinthiano, maloqueiro e sofredor, Graças a Deus.

Back to where we were

Passada a vibe “prova de música eletrônica” e a minha raça de final de semestre — fenômeno único ocorrido a cada seis meses em que eu arregaço as mangas e vou pra cima delas pra fazer trabalhos e o que mais for necessário — voltei a ser o mesmo Filipe de sempre, um pouco entediado, bastante preguiçoso e menos estressado, claro. Assisto o Bate-Bola, o Arena. Nice, se pá. Devia estar escrevendo meu TCC? Como diz o Éfe, “não vou mentir”. Mas essa volta às origens, além de me apartar do mundo e me impedir de escrever (não só o TCC, mas no blog também, como vocês podem notar), me fez pensar em algo. Já aviso que será um post típico de Filipe, mais reflexivo e melancólico do que deveria ser. É impressionante como as pessoas se juntam e se separam, e como elas se repelem também. Aí você diz: “Jura por Deus? Achei que todo mundo se amava igual, achei que não existia afinidade e essas paradas, que ninguém se odiasse, que tudo fosse feliz como um single de caridade à la We are the World“. Aí eu respondo: “Não, porra. Não sou idiota. É óbvio aos olhos de todos que as pessoas se dão bem com alguns e se dão mal com outros seres humanos. Mas o ponto é onde entra o tempo nessa história.”

É impressionante como entram e saem pessoas da vida umas das outras, e é impressionante como faz sentido tudo isso. Houve um dia em que a trinca Eu-Éfe-LucasMelo fazia parte de uma dúzia. Foi uma época louca da faculdade: mó galera, vários encontros, bares, narguiles, WinningElevens. Até viagens e ano novo juntos. Fucking nice. Tenho saudades, admito. Mas aí foi dando uma miada. Ou melhor, a gente foi se destacando do grupo. Parecia que tinhámos mudado. Não fazia tanto sentido. Fechamo-nos em três, com o outro Lucas de D’Artagnan. Logo éramos quatro. Então viramos seis: amigas de amigos, faziam muito mais sentido com a gente do que com quem nos apresentou. E assim progredimos.

Essas conexões quase sinápticas parecem fazer parte da vida social de todo mundo. Uns vão, outros vêm. Alguns vão e vêm, sem nunca irem de verdade. Oscilações. Natural. Acho que isso é coisa muito natural mesmo. As pessoas evoluem, suponho. Talvez não evoluam, porque isso prevê melhorias, o que não me parece ser o caso. Elas mudam, trocam de interesse, valorizam outras coisas. Mas seriam essas mudanças estruturais? Porque não me entendo dessa forma. E parece acontecer de novo. Amigos com novos trabalhos, novos desafios. E ficando pra trás.

Outro dia, um amigo daqueles que nunca vão de verdade me disse: “Você é o tipo de cara que não vai ter contato com os brothers da faculdade.” Se pá. — eu disse — Ainda bem que eu faço duas faculdades, assim dobra minha chance”.

É, de fato, muito natural. Diria até impossível de mudar. Nada segura a falta de interesse, que evolui em distância e desagua na perda de intimidade. Nada segura o encantamento com novas pessoas, que passam a fazer muito mais sentido. Mas não sei o quanto isso acontece comigo. Já deixei muita gente pra trás. E sou deixado pra trás. Não acompanho as mudanças, ultimamente.

Éfe Love — cada vez mais Do Amor — disse no bar outro dia “A intimidade nunca volta”. Acho que foi ele que disse, ou um dos Lucas. Eu até acho que volta. Foi o que eu disse naquele momento. Porque na verdade a intimidade é coadjuvante. O que importa é que não há mais porque retomar. Não faz sentido. E, encarando naturalmente, não me vejo no direito de tentar mudar isso aí, até por não fazer sentido. Há quem diga que se deve ligar, encher o saco, ficar procurando. Não é o meu estilo, it’s not the way I roll. Eu prefiro deixar rolar, pra ser natural, como deve ser. E a vida segue até o dia em que você encontra no shopping e passa por trás do pilar.

Top 3 músicas para ouvir alto

Outro dia estava em uma conversa sobre como certas coisas são capazes de emocionar as pessoas. Não só histórias, mas também algumas imagens, algumas músicas. Não é uma emoção por trazer lembranças específicas e sim emoção pela simples beleza daquilo em si.

A conversa enveredou mais para a questão musical, como algumas músicas específicas são capazes de levar pessoas às lágrimas. Admito que isso não ocorre comigo. O que para outras pessoas sai em forma de lágrimas pra mim sai na forma de aumentar o volume da música.

É incontrolável, parece que elas pedem. Daí veio esse top 3, que é um post preguiçoso de sábado:

Phoenix1901

The Temper TrapSweet Disposition

Arcade FireWake Up


Escrotidão

Eu sempre odiei bancos. Aquelas portas giratórias. Aqueles bancos sujos. Aquelas senhas idiotas. Aqueles caixas que trabalham com cara de quem comeu merda de almoço.

Mas nada que supere os usuários escrotos de banco. Parece que aquele lugar é um imã de imbecis.

15h30. Agência USP. Não bastasse ter que fazer o trajeto Zona Leste – Zona Oeste em um dia que eu tinha coisas infinitamente melhores pra fazer só pra sacar dinheiro porque tem limites em agência que não a sua de origem, quando chego por lá pego a senha 484. Olho pro painel, que marca: 450. Fuck. Fuck. Fuck.

Vou embora, eu penso. Não posso, é o pensamento seguinte. Fuck. Fuck. Fuck.

Nada de revistas pra ler. Nada de música pra ouvir. Bling! 451.

Resolvo então dar uma limpa no celular, apagando fotos idiotas, contatos imbecis e coisas do tipo. Sobraram umas poucas fotos legais e uma receita de uma bebida com champagne, vodka e pêssego em calda. Ihu!

Bling! 455.

Bling! Bling! Bling!

Idosos passando na frente, grávidas passando na frente, um mano de cadeira de rodas passando na frente e até gordas passando na frente. A paciência foi indo embora. Mas não posso ir embora, pensei de novo.

Mas daí tudo que pode ser chamado de tolerância vai embora quando chega uma mulher, com o que só poderia ser um ZILHÃO de contas pra pagar. Meia-hora depois ela continua a pagar. IPVA, IPTU, Inspeção Veicular, carnê disso, carnê daquilo, sei lá mais o que de dívida aquela mulher tinha, mas enfim.

Passo a ouvir a conversa dela e percebo que ela já tem tudo guardado na bolsa. As contas acabaram. Sério, o que ela ainda está fazendo ali? Não é possível. Olho pros lados e tem um monte de gente olhando aquilo, balançando a cabeça. O diálogo que se seguiu:

Escrota: Não, mas o problema é que isso ai nem brasileiro é, sabe? Eles copiaram de outro país. Ridículo.
Atendende: É verdade.
Escrota: E o pior que todo mundo vê. E nem percebe que isso estraga o cérebro.
Atendente: É verdade.
Escrota: Aquele outro programa é muito melhor, por exemplo. Aquele … A Fazenda!
Atendente: É verdade.
Escrota: Porque pelo menos ele ensina umas coisas e tal. E é brasileiro, né?
Atendente: É verdade.
Escrota: Bom, acho que eu vou indo, já terminei aqui. Tchau.
Atendente: É verdade. Tchau.

Bling! 479.

Sério. What the fuck!? Sério! 40 pessoas na porra da fila e você fica falando de BBB com o caixa do banco!? Puta merda! Sério, morra, escrota. Por favor. Faz isso pra gente.

E da próxima vez que quiser encher o saco de alguém, não começa falando de cérebro, que você não tem, nem vem com nacionalismo barato.

E o caixa do banco não está interessado em você. Pronto falei.

Bling! 484.

What the fuck?

Quando eu entrei na faculdade, tinha um cara que falava várias expressões em inglês nos meios das suas conversas. E por qualquer motivo, ele sempre foi motivo de chacota entre as pessoas, que achavam aquilo arrogante, escroto e desnecessário.

Os anos poucos se passaram e cá estou eu, cada dia mais percebendo como uso várias coisas em inglês, talvez até mais do que o tal cara da faculdade.

Não sei explicar a razão disso especificamente. Poderia usar a desculpa de que existem algumas expressões ou palavras em inglês que não tem têm o seu equivalente em português e isso até seria verdade, em partes.

Mas é claro que com um pouco de afinco e o mínimo de pesquisa nos meus próprios conhecimentos da minha língua-mãe eu talvez conseguisse achar esses equivalentes. Mas não o faço. Porque? Sou arrogante? Sou escroto? Sou descessário?

Acho que isso de falar em inglês tem a ver com o colonialismo cultural a que todos, e principalmente essa geração, foi, é e sempre será submetida toda hora e todo instante. Aprendemos o inglês, o vemos na boca de tanta gente, muitas vezes mais até ouvimos mais inglês do que português em certos dias, que acabamos deixando de lado a nossa língua, achando dificuldades em achar palavras ou expressões que talvez até servissem melhor pra algumas situações.

Mas não só passamos a deixá-lo de lado, como começamos também a ter um certo preconceito contra ele. Um exemplo que eu sempre penso é a letra de Bootylicious do Destiny’s Child.  O refrão (pegajoso ao extremo) é:

“I don’t think you’re ready

For this jelly”

Sério. Você já pensou se isso fosse uma obra sei lá, da Ivete Sangalo? As pessoas iam gostar, sem dúvida. Mas muita gente (incluindo eu mesmo) acharia ridículo, ao passo que parecemos ter uma maior tolerância para coisas esdrúxulas quando escritas (ou ditas) em inglês.

Estou escrevendo isso não porque seja o defensor do português, longe disso, até porque me incluo no grupo dos que curte lançar um fuck pra lá, um that’s the way i roll pra cá. É só mais uma daquelas coisas que temos consciência mas não sabemos muito bem lidar ou explicar ou justificar. Ah, sei lá. Fuck it.