Monthly Archives: April 2011

História que não aconteceu mas poderia ter acontecido #1

É como se estivesse na pele daquele cachorro do Snatch que engole um brinquedinho e fica fazendo um barulho irritante cada vez que late. Mas invés de um brinquedinho barulhento parece que engoli uma bola de tênis cheia de pregos loucos e enferrujados.

Penso nas soluções para essa doença idiota e repentina. Busco culpados mas não tem muito como resolver. É uma questão de esperar passar e pronto. Mas será?

Lembro de uma passagem de Sandman que tem uma mina que engole tudo quanto é tipo de coisa e cospe uma bola de pêlos. Poderia ser isso o que me aflige? Seria genial. Penso no alívio. Começo a tossir.

Lembro de outra história, do bebê que pensava que tosse era uma forma de comunicação.

Continuo a tossir.

Tosse. Tosse. Cof. Cof.

Não sai nada e tudo fica mais arranhado ainda. Começo a cuspir sangue e outras coisas, até que um alívio absurdo me atinge.

Olho para a minha mão e vejo uma amígdala. Ela é vermelha. Engulo e os pregos se foram. Ficou só o gosto de sangue.

Jogo no lixo a amígdala fodida e saio pra ir tomar um sorvete.

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Próxima estação

Segunda-feira
Carro P223

Alguém canta uma música triste e melancólica nos fones de ouvido postos de propósito no último volume para abafar qualquer som daquele microcosmos. Não porque eu seja o ser mais anti-social do planeta mas simplesmente porque o livro que levo nas mãos me parece muito mais interessante do que qualquer interação. A mulher ao lado se aproveita de um descuido e quando tiro os fones ela já emenda:
– Nossa, mas o que ele fumava?
Olha para o lado e ela me encara com olhos cansados e curiosos. Eu respondo baixo:
– Crack.
Ela entristece rapidamente:
– Mas ele se livra no final?
Olho para o livro e folheio as cento e poucas páginas que ainda me faltam:
– Acho que sim, ainda não terminei.
– Hum, mas ele era brasileiro?
– Não, americano.
Ela pensa por um mini instante:
– Hum, é difícil se livrar do crack!
Eu não sei mais o que dizer pra ela. Ela agradece e levanta.

Admito que fiquei um pouco chocado com a ousadia dela. Não de vir falar comigo mas por ler descaradamente o livro que eu segurava.

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Terça-feira
Carro P210

Ela realmente sabe se equilibrar. O balanço e as freadas bruscas não parecem afetar em nada a moça. Bem no meio do vagão é como assistir um balé contemporâneo e moderno e abstrato de pernas apoiadas com força no chão, mãos evitando qualquer contato com as barras metálicas cheias de … coisas… Outras pessoas parecem observar a mesma coisa que eu. Aposto que algumas pensam “exibida”. Outras devem só estar imaginando que a chuva que está caindo lá fora vai foder ainda mais o caminho pra casa. Mais uma freada, essa parece brusca de propósito. Mas ela se mantém firme e forte. As portas abrem e ela sai. Pode ser só minha imaginação mas vejo um brilho de orgulho no olhar.

Admito que senti um pouco de inveja. Não por ter labirintite mas porque eu penso o quão sujo são aquelas barras metálicas que eu me apoio.

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Quarta-feira
Carro G143

Eu vejo um casal brigando pelo reflexo da janela. Parece uma televisão que eu não consigo trocar de canal. O casal parece saído de uma série ruim. Ela tenta fazer ele se comunicar com ela, toca a perna dele, que está perigosamente perto demais da minha, eu penso, mas ele não se move num um pouco. Continua olhando para a frente, para a virilha de alguém que está parado a sua frente. Impassível. Ele e a virilha. A mulher desiste.

Admito que me divirto um pouco com esse flash de vida real e comum. Não porque eu seja sádico mas porque a perspectiva do reflexo era realmente bonita.

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Quinta-feira
Carro G075

Eu vejo pés em cima dos assentos. Não são azuis, logo são os únicos que eu posso usar. Não curto usar os azuis sabendo que vou ter que levantar eventualmente. O idiota ocupa 3 assentos. Um pra ele, outro pra mochila e outro pros pés. Como se aquilo tudo fosse um grande e enorme sofá de casa. Não é possível que só eu esteja vendo isso e só eu esteja tão abismado com a total falta de bom senso daquele cara. O celular deve ter algum jogo estúpido. Penso qual seria a reação dele e das outras pessoas se eu fosse lá, pegasse aquela merda de celular e jogasse pela janela, nas profundezas daqueles túneis escuros que passam em alta velocidade. Penso nas possibilidades que o rosto dele poderia formar. Penso nisso até a hora de ir embora. O imbecil até abaixou os pés, depois de levar uma mochilada de um mano acompanhado da namorada.

Admito que queria que algo mais acontecesse com ele. Não porque eu seja violento mas porque de idiotas o mundo já está cheio.

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Sexta-feira
Carro FOX9222

O único reflexo é aquele já conhecido. Os olhos cansados dessa vez eu já sei como que são. Um pouco verdes, um pouco amarelos. Curto quando eles estão meio cinza. Isso é o máximo do interessante no caminho de quase duas horas.

Que merda.