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Eu tava relendo meus posts, com orgulho por ter escrito dois numa mesma semana. Teoricamente eles não têm nada a ver um com o outro. Relações pessoais e futebol. Mas percebi uma coisa interessante: acho que tenho com as pessoas uma relação parecida com a que tenho com o futebol.

No último post falei sobre o quanto desaprovo o siso no futebol. Falei sobre a perda da magia a partir da mudança de olhar, que destrói, de certa forma, a beleza e a emoção pura que vêm dali. Claro que isso tem dois lados, como também disse no outro post. Aproveitando essa ingenuidade, muitos transformam o futebol em um negócio rentável e corrupto às custas do torcedor. E, pior que isso, fazem de otário aquele que é o motivo de o futebol ter se tornado rentável — quem lota os estádios –, fazendo com que sofra as consequências do abuso do poder e do descaso, consequências essas que se materializam em um time ruim e perdedor.

Quando penso assim, me acho meio idiota por me envolver e dar importância para algo que quem comanda nem sempre olha para o meu lado, nem sempre age com reciprocidade à paixão que move a multidão de fãs. Mas, penso, se não enxergar o futebol com paixão, qual será a real serventia dele na minha vida? De jogo sem graça, que não trascende nada, já basta a bocha, a Paciência do Windows. Quero algo que me traga um sentimento diferente a cada contato que eu tenha. Para mim, o futebol é assim. E, para mim, assim também têm que ser as pessoas.

Pessoas que não têm nada a ver comigo — não me encantam de jeito nenhum — não são o problema. Elas são para mim como o salto com vara, o decathlo, a maratona. Não me dizem nada, passam batidas. O problema de verdade reside nas pessoas que são metade do futebol. Pessoas que são o futebol sisudo, pessoas que passam a tratar a vida como meu tio — aquele citado no post anterior, que acha que ganha o time em que os dirigentes roubam menos — trata o futebol. E o pior é que isso não tem a ver com afinidade, não tem a ver com conteúdo. Meu tio mesmo é um grande cara. Posso passar dias me divertindo e conversando com ele. Temos afinidade. E lembro — talvez de maneira distorcida — que um dia ele não era assim. Tanto que me levava aos jogos constantemente, vibrava e sofria com o todo-poderoso. E, percebo, pessoas com a idade dele, que formam a primeira geração que eu consigo ter memórias de como era quando jovem, em geral ficaram assim de uma hora pra outra. Outro tio meu, que adorava música, que me deu minha primeira guitarra, jogava videogame, ria, se divertia e de repente endureceu. Meu pai também, cada dia que passa quer mais dormir cedo e menos curtir as coisas da vida, seja tomar uma cerveja, seja ficar com a família. Percebo essas coisas há tempos, mas elas, por mais perto que estivessem, ainda não me atingiam.

O negócio é que agora são meus amigos que não sofrem mais com o futebol. Perdem a Libertadores e tomam uma cerveja com a mesma empolgação que tomariam se tivessem ganhado. Mais uma vez, não tem a ver com afinidade. São amigos, pessoas que me rodeiam, pessoas que escolhi que estivessem por perto.

Não consigo concluir outra coisa que não “adultecer sucks”. Acho que uma certa hora é inevitável mesmo, você amadurece, fica mais cansado. Mas isso daqui uns 30 anos, né? Por enquanto, isso é uma escolha. E essa escolha faz quem quer brincar de ser sisudo. Como aquelas crianças que querem ser adolescentes e resolvem encanar com o pai e a mãe, descem do carro um quarteirão antes da escola pra chegarem sozinhas.

Lógico que o mundo começa a clamar por essa mudança, mas eu ainda acho que tem que se saber dosar isso aí. Blasé e sisudo com 23 é querer ser hype. Ser assim como eu, acreditar ingenuamente na fantasia é pedir pra ser enganado por dirigente também. Mas eu sei disso, também sofro com o mal, pelo outro lado. Insisto em jogar bola, em não me formar. Insisto em não sucumbir ao mal da rotina. Insisto em não deixar de lado o que faz da vida mais doce, como gritar na arquibancada e sofrer com o futebol. E nessa hora me identifico muito mais com o Gavião ao meu lado, na arquibancada, que talvez não tenha afinidade alguma do ponto de vista intelectual e de interesses, mas que preserva uma visão de mundo que vem ao encontro do que eu penso. Nessa hora, quero ser o torcedor, não quero apurar o balanço de gastos do clube. Quero do meu lado quem vê como eu. Não quero um banco de dados, um monte de boas opiniões, um monte de idéias boas, mas que se diverte com a aventura de se portar com juízo extravagante.

Sei que é possível torcer e sofrer com olhos atentos ao que fazem os dirigentes. Sei que é possível adultecer sem perder as delícias da juventude. Mas como ainda não sei como fazê-lo e como tenho pavor do jeito com que as pessoas ao meu redor têm feito isso, prefiro ser e dividir minha vida com pessoas que sofrem e vibram. No fim das contas, dos amigos que vão e vêm, os que sempre ficam são esses aí, que racionalmente não têm o mesmo potencial que têm outros de serem meus grandes amigos, mas que encantam talvez por se deixarem enganar por qualquer ridículo tirano.

Bando de louco

Eu sempre curto uma preguiça. Mas aí fiquei com preguiça de curtir a preguiça e resolvi me mexer, na última quarta-feira. Não foi uma mudança drástica, tipo começar o TCC. Mas tomei coragem de encarar a fila no Pacaembu, no sol, e comprar um ingresso pra ver o jogo do Corinthians. Sabe como é, Roberto Carlos, Ronaldo, Elias, Fiel Torcida e tudo que engloba o time do povo. Antes que você se pergunte, não, não é exatamente um post exaltando meu time do coração. E que não se preocupem os que detestam o futebol — não quero discutir esquemas táticos, embora tenha algumas coisas pra falar a respeito disso.

O negócio começa exatamente por vocês que não gostam de futebol. Ou pelo  próprio gostar de futebol. Torcer, gritar, sofrer, chorar. Porque, apesar de inúmeras vezes refletir e discutir com os brothers sobre isso, não entendo o que faz pessoas como eu e muitos outros terem a vida afetada por isso. E não é só afetada, é transformada realmente. Gastei um monte de tempo e dinheiro, fiquei no sol, demorei na fila, peguei uma chuva absurda durante o jogo e, mesmo assim, saí mais feliz. E é assim com muitos. Tem gente que vive pra isso, que viaja a cada jogo. Há quem diga que é um bando de desocupados, que é gente que não faz nada da vida, mas eu prefiro olhar com outros olhos. O que será que tem de tão importante no futebol que faz alguém deixar de viver a vida para si mesmo e dedicá-la a um clube? Como diz o hino do Grêmio Foot-ball Porto Alegrense, “até a pé nós iremos para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”. É essa sina, essa devoção que eu não consigo entender, mas consigo sentir. Claro, não sou um torcedor tão fiel como tantos outros. Mas confesso que gostaria.

Meu pai não gosta de futebol. Tem as pernas tortas, como Garrincha, mas sua habilidade é inversamente proporcional à de Mané. É aquele torcedor que se diz palmeirense, mas que “fica feliz por mim” — como diz — quando o Coringão leva a melhor no embate entre os dois. Meu tio, pelo contrário, sempre foi um bom jogador, e, proporcionalmente, um bom torcedor. Sempre me levou aos jogos. Desde quando eu era um pequeno Louco-por-ti-Corinthians. Lembro de ir ver um Corinthians e Grêmio pela Copa São Paulo de Futebol Junior e sair do Pacaembu no meio da multidão sentado sobre seus ombros. Lembro de ver um Corinthians e Goiás em um dia qualquer de semana. 1×1. Gol de Neto, de falta. Nesse dia, aprendi a mentalizar. Ele me disse: “Mentaliza. Vai ser gol. Enxerga a bola entrando.” Acho que não fiz direito. Neto bateu e foi na barreira. Mas o destino insistiu e o juizão mandou voltar a cobrança. Nova chance pra mim e… Gol! Mentalizei. Vi a bola entrando, no ângulo. O gordinho colocou a bola naquele mesmo ângulo, exatamente como previ. Lembro também de pular a catraca num jogo sob chuva forte. Um cara me ajudou. Meu tio me passou por cima e o cara me pegou do outro lado. Essa brodagem é característica de estádio. O abraço com desconhecidos na hora do gol aproxima aqueles que estão unidos pela mesma paixão. Já rolei a arquibancada, num princípio de confusão. Lembro da minha camisa de porta do estádio, tosca, de algodão. Ganhei do meu tio com três anos de idade. Era da Kalunga. Uma estrela só em cima do distintivo alvinegro. Lembro  como veio a segunda estrela: os gols de Marcelinho e Edílson, com passes de Dinei — o talismã da Fiel — marcados na meta da qual eu estava atrás, na numerada do Morumbi, em 23 de dezembro de 98. O Corinthians vencia o Cruzeiro e virava bicampeão brasileiro. “Fica Luxemburgo, você vai ser campeão do mundo”, gritava a Fiel em festa. Na saída, quase não pisava o chão. Flutuava em meio à massa alegre que deixava o palco. Nesse momento, graduava-me em Corinthianismo. Voltava feliz ouvindo o replay dos gols no Rádio AM no Uno do meu tio. A voz de Silvério, distorcida pela interferência do motor do carro, gritava emocionada o nome do Corinthians e me enchia de orgulho e êxtase. Pude ver, nos próximos anos, muitos outros títulos. O campeonato Mundial sobre o Vasco, xingando o Luciano do Valle, que parecia a nós — eu e meu tio — um agourador do nosso título por vir. Chupa Edmundo.

Também chorei muito pelo Timão. Começando por 93 — o Paulistão para o Palmeiras. Minha mãe pegou uma camista branca e escreveu alguma coisa que não lembro, mas era algo incentivando o Timão antes do jogo e que me deixava feliz, no auge dos meus 5 anos de idade. Eu não entendia exatamente o que acontecia. Não sabia o que era prorrogação. Mas tirava onda com o gol do Viola e a imitação do porco na comemoração, no primeiro jogo. Já xingava os Palmeirenses de porcos, fazia embate de musiquinhas de torcida com minhas primas, até então palmeirenses, mas hoje corinthianas. Chorei muito, sabia que era roubado. Expulsaram o Henrique e o Ronaldo. Meu tio estava indignado. Eu não poderia ficar outra coisa que não isso.

Assim foi nas libertadores contra o Palmeiras. Inacreditável. Sofrível. E contra o River? Já era maior, não queria chorar, xingar. Preferia tentar não me importar. Mas não dava. 2006. Naquele momento até apoiava a massa enlouquecida que tentava invadir o gramado. Coelho? Betão? Fuck.

Ainda não entendo por que razão isso é tão grande. Não vou aqui fazer menção ao quão especial é torcer para o time que eu torço, como a Fiel é diferente. Sei que, do mesmo jeito que lembro desses momentos, outros também lembram de seus times. Meus companheiros de blog, saopaulinos como são, devem ter comemorado com seus pais as libertadores e mundiais de 92 e 93. Também devem ter sofrido com a perda da final de 94 para o Vélez. Com certeza sofreram quando o Raí perdeu dois pênaltis contra o Dida, em 99. E a tetra eliminação para brasileiros nas últimas Libertadores. Os palmeirenses também sorriram enquanto eu chorava. Faz parte do jogo, meu tio sempre disse. Agora ele entendeu isso, não sofre mais. Alguém perde e alguém ganha. Para ele, isso está diretamente ligado ao quanto se rouba dentro dos times. Sei lá. Não aprecio esse siso no futebol. Perde a magia. Sei que nos fazem de idiota e isso é revoltante, mas acaba com a fantasia entender o mundo desse jeito, embora a fantasia mascare os maquiavélicos ditadores. Também sei que eu e o Corinthians não temos ligação nenhuma, que se roubarem lá, eu não perco nada, teoricamente. Se ele perder, eu teoricamente continuo igual. Mas é isso que intriga. Eu me importo, eu xingo, me revolto, sorrio, sofro e comemoro. Me arrepio ao ouvir a massa. E ao fazer parte da massa. Talvez seja isso. Se enquadrar, fazer parte do grupo. Ser mais um louco no bando, louco pelo Corinthians. Naquele momento é só isso que você é. Cantar, pular, xingar. Tomar um gol e cantar mais forte, apoiando até o fim.

Mas, sinceramente, o futebol é mais do que sentir-se bem e completo, incluído socialmente. É algo que você sente como seu, mesmo que pareça ensinado. É algo que você tem orgulho sem saber bem a razão. Porque não é racional. Não é pra entender, talvez. É pra sentir. Não sabem o que perdem aqueles que veem um retângulo com 22 caras correndo atrás de uma bola e milhares de otários pagando pra olhar.

Corinthiano, maloqueiro e sofredor, Graças a Deus.

Tenra infância?

Minhas únicas duas memórias de infância, daquelas vívidas, que sei contar a história direito e tal, são:

– quando meu irmão, numa lutinha idiota, quebrou meu dente da frente com uma joelhada desleal, depois de eu, acidentalmente, ter quebrado os óculos dele. Assim, totalmente desnecessário esse uso de força bruta contra o irmão menor e tal, me fudeu o dente, que ok, nem era permanente ainda, mas mesmo assim. Lembro de chorar mas depois passou e tal. Depois disso nunca mais me envolvi em brincadeiras de mão, porque elas machucam, cara. E elas não levam a lugar nenhum.

– quando eu, no ápice da minha aventura futebolística pelas quadras dos torneios entre os colégios da Zona Leste da cidade me destaquei na gloriosa quadra de ladrilhos do Externato Nossa Senhora Menina (que depois viria a ser palco de um sangrento confronto entre pais de duas escolas, coisa que eu presenciei in loco) e ganhei uma camiseta como melhor jogador de um dos jogos lá.

Pronto. O resto são meros fragmentos de coisas. Não lembro de jogar videogame, não lembro das pessoas direito, é tudo embaçado, como se uma névoa bizarra e escrota tivesse tomado conta da minha memória. Sempre tem uns períodos que eu fico pensando nisso, no fato de não lembrar das coisas. E isso sempre tende a cair pra um de dois lados:

1. Eu to encanando com uma coisa imbecil (grande probabilidade) e que as pessoas que lembram com detalhes vívidos de quando comeram mingau pela primeira vez sentados num cadeirão na cozinha da avó que tinha cheiro de desinfetante são a minoria da minoria da minoria e que a maioria não lembra de merda nenhuma mesmo porque tudo aquilo não importa, são só fatos da sua história nessa parada que chamamos de vida. Não são grandes acontecimentos que te formaram como o ser delicado e simpático que é hoje e sim só a primeira vez que sua mãe, cansada de te dar papinha de maça com mamão, te deu mingau. Simples assim.

2. Aconteceu alguma coisa muito ruim comigo e eu não lembro. Alguém me molestou. Alguém me colocou de cara na privada. Alguém me esqueceu dentro do carro por 12 horas e eu quase morri de calor. Alguém sei lá, fez algo assombroso e tenebroso, que me marcou para sempre e eu tive um bloqueio de memória. Eu nunca pensei que isso existia, que a mente fosse capaz de algo assim, sempre achei frescura, mas sei lá, vi acontecer, então porque isso não pode ter acontecido comigo antes? Nos meus tenros anos? Sei lá, vai saber.

Mas na real mesmo, eu não acho que fui molestado, nem que mingau pela primeira vez não é importante. Eu só não lembro das coisas. Eu não lembro do meu 1º colegial quase que inteiro e isso não faz nem 7 anos, sei lá. Acho que eu tinha coisas mais importantes pra lembrar naquela época.

Não fico super triste de não lembrar da minha infância, mas é que só tenho a impressão que poderia ter boas histórias ali em algum lugar. Mas ok, fica pra próxima. Eu posso sempre inventar umas pra cativar as pessoas. Tipo quando meu irmão foi atropelado por um trenzinho. Opa, pera ai, essa história já tem dono. Fuck…

“Graças a Deus, né?”

Tenho a impressão que ateus e agnósticos crescem em número a cada dia.

Quando eu era menor, pensava que todo mundo era religioso. Pensava que até eu era religioso, afinal fazia catequismo e primeira comunhão e tudo isso. Tudo bem que isso rolava imediatamente antes do treino de futebol e eu admito que eu pensava mais na belas jogadas que eu tentaria por em prática em quadra do que na ressureição.

Mas depois fui me esquecendo disso, percebi que na real eu não era nada religioso. Entendo que crer em algo superior a todos nós é uma necessidade humana quase inerente a nossa existência. Entendo que acreditar piamente em algo, dar um salto de fé, é a receita para um certo alívio imediato sobre as questões que não sabemos responder, mas ao mesmo tempo é tudo muito sem sentido, bate de frente com qualquer lógica com a qual possa concordar. Não compro a ideia de religião, assim como não compro a ideia dos placebos e dos remédios homeopáticos. E é quando percebemos que tem um monte de gente que pensa igual.

Não quero fazer parte dos que são anti-religião, porque isso é idiota. Mas muito me parece que as pessoas cada vez mais estão de boa com tudo isso. É só uma constatação, uma conclusão que me parece óbvia, mas pode não ser, não sei.

Não tenho problemas com a religiosidade das pessoas, não fico tentando convencer que a Igreja é coisa inventada pelos homens, que ela é mais uma parada de controle de massas que qualquer outra coisa, não prego que todos os padres são pedófilos, que JC não existiu, que estamos sozinhos aqui, nem nada.

Cada um tem a sua fé e ok, assim nós vamos. Mas admito que algumas poucas coisas me incomodam nisso tudo de Deus e o Diabo na terra do sol.

Logo que eu passei no vestibular estava em alguma festa. Era parabéns pra lá, parabéns pra cá, até que alguém me abraça e fala “Ah, você passou no vestibular? Graças a Deus, né?”. Poxa, não sabia que eu canalizava essa parada de O Todo Poderoso em mim. Desculpa ai, mas não foi Deus que marcou A, B, C, D ou E nas cento e poucas questões não. Vou ser pouco modesto dessa vez e falar que esse trabalho foi todo meu mesmo.

É a mesma coisa quando as pessoas te cumprimentam e falam “Amém”. Fico muito sem saber o que fazer nessas situações. Não quero falar “Amém” de volta sendo que não curto a parada. Mas se eu não falo a pessoa pode achar que preciso de um exorcismo ou me achar do mal e mal educado? Sei lá. É tipo quando você encontra alguém e não sabe se cumprimenta com um beijo ou um aperto de mão ou um tapinha nas costas.

Assim como não gosto de estar em igrejas. É tudo muito bonito pra alguns, mas pra mim não rola. Não gosto de vitrais e das cores loucas que eles fazem a luz ficar, não gosto de ajoelhar, sentar e levantar toda vez que alguém em um palquinho me pede para fazê-lo, mas principalmente, não gosto de pessoas crucificadas de 20 metros pintadas sobre a minha cabeça.

Foi mal, J-man, sei que você é O cara aparentemente, mas eu não gosto de ficar olhando pra você, não me leve a mal.

Texto: F. Garrido

Michael ferrou o futebol.

Chegando hoje no trabalho, percebi que algum grande evento tinha acontecido. Guardinhas da cet interditavam ruas movimentadas, o trânsito piorava a cada minuto e tive que estacionar numa vaga muito longe. Pude ver que o epicentro da muvuca tava bem ali na direção em que eu tinha que ir. Foi passar pelo ponto de taxi para ouvir as novas; os bombeiros tentavam apagar o incêndio numa árvore encostada em um monte de fios elétricos – a chuva só deixava o cenário mais curioso. Assim que cheguei na minha mesa, não se falava de outra coisa: era impossível estacionar e a árvore em chamas parecia mais uma árvore fumante (ninguém viu fogo). Até quem perdeu a hora no almoço tinha uma desculpa boa para o atraso. Era o acontecimento do dia.

Não, não era. Às 7 da noite, só se falava de outra coisa, tinha morrido o cara de Billie Jean, the one who will dance on the floor in the round. Pior que não foi assim “morreu e pronto”. Foi “tá quase, subiu no telhado, deve ter morrido, CNN acha que não, ah, tá em coma”. Na real, já tinha esticado as canelas finas e brancas, mas faltava alguém confirmar direito. Imagino o clima nas redações das grandes agências, matérias prontas, mas na fúria pra falar com alguém que pudesse dar certeza.

20h10min tive a notícia: meu jogo de futebol estava arruinado. Na mochila, chuteira, meião, tornozeleira e o caramba; iam continuar lá. Michael, morto ou vivo (a essa hora, já morto), obrigou os outros jogadores a prolongar o horário de trabalho e abandonar a  pelada. Paciência, ficou pra segunda.

Na saída, passei por aquele mesmo ponto de taxi. Da porta aberta de um dos carros só dava pra ouvir que o kid is not his son.  A pobre árvore, que, evocando os rituais do vaticano, anunciou mais cedo a morte do papa do pop, estava lá, esfriada, esquecida. Viveu seu momento de Farrah Fawcett: por instantes, era a sensação do dia e bombava no twitter. Quando estava pronta para se gabar pros amigos, virou  caso de segunda página do jornal do bairro. O Sumaré News já tem uma capa melhor pra amanhã.

Conquistador de derrotas

Nos últimos dias, eu estou transmitindo por aí o vírus de uma gripe escrota que dá uma tosse desgraçada. Ahn, mas como seria bom se fosse só isso. O trimedal, o tylenol de efeito prolongado e as mandingas de avó tão aí pra resolver o problema de qualquer um. Mais do que o mal da tosse, tô também espalhando por aí a catástrofe da derrota, e essa não tem chazinho que resolva.

Começou domingo, naquele mesmo JUCA que o F. Garrido citou, finais do torneio de handebol. Nem sou grande fã do esporte, mas no ginásio e na decisão é impossível não torcer. O meu time tava indo bem, conseguiu abrir alguns gols de vantagem, só não sabiam que ia ser impossível bater seu adversário maior: eu. Pessoal, foi mal mesmo, tava mais pé frio que o Federado, amigo nosso que usava quatro meias logo ao meu lado. Apesar do esforço deles, logo logo me fiz superior e a rede começou a balançar do lado errrado. Vice-campeões. Grande merda.

Ainda não tinha percebido que o problema era comigo. Mantive, então, as esperanças para o segundo jogo da tarde, partida final do futsal. Musiquinha de torcida, gol do adversário, vibração, gol do adversário, alto astral, gol do adversário. O errado nunca consege enxergar a situação com clareza, a culpa sempre vai pro lado de lá. Xinguei um, vomitei minhas teorias, culpei o outro. O destino ainda quis brincar um pouco e fez meu time quase empatar a partida. Foi aquele suspiro final antes do desastre definitivo. Mais um vez mostrei que sou forte e fiz meu time levar uma sacola de gols. Fui pra casa inconformado.

Passando pros jogos profissionais, nada mudou. Quarta foi a vez de secar o Corinthians frente a um adversário que parecia aguentar o tranco. Mas quem é Internacional perto dos meus ares fatais da derrota? Chupa, Inter. Hoje tô vendo o São Paulo dando desculpinhas de perdedor enquanto meu tio cruzeirense enche o saco aqui no celular (que ninguém vai atender, tiozão). Foi mal, time, a fase é brava aqui mesmo.

Scan10219 copySei lá, viu, tenho que aprender a torcer pro time errado ou viabilizar retorno financeiro para esse bode preto que voa em cima da minha cabeça. Você, amiga de casa, que nunca ganhou um par ou ímpar; você, que é mó ruinzão de bola; ou até você que insiste em jogar pelota basca, seu esporte do coração, embora todo mundo insista em te convencer a trocar por algo que você se adapte melhor – essa é a chance da sua primeira vitória. É só avisar que eu tô aí, na vibe da derrota.