Doctor doctor, please

Outro dia fiquei pensando na parada da psicologia. Tipo terapia. Acho que foi por causa de um filme, possivelmente ILHA DO MEDO. Como existem mil caminhos na terapia, como tudo parece ser a chave e a solução de tudo. Eu concordo com quem fala que todo mundo pode aproveitar uma terapia. Não há ninguém que esteja tão bem resolvido consigo mesmo que não possa aproveitar um olhar distante e analítico feito por outra pessoa, especialmente se ela é treinada pra isso.

Mas existem pessoas e pessoas. No caso, acho que existem dois tipos de pessoas que fazem terapia, no sentido de como elas saem de lá. Ou elas saem de boa, mais conhecedoras de si mesmas, ou então elas saem como idiotas, que embora sejam mais conhecedoras de si mesmas parecem que desaprenderam como conhecer os outros. É aquela velha questão de projeção em terceiros que fode tudo sempre.

Isso porque a terapia é conhecimento, é repertório. E isso pode se tornar algo bom ou ruim. É como se o sucesso daquela sessão de psicologia subisse à cabeça. Eu na verdade não conheço tantas pessoas que passaram por terapias e as que eu conheço saem melhores, de bem com elas mesmas e sem tentar ensinar pros outros o que acabou de presenciar.

Eu ainda não comecei a terapia mas ela estará presente por aqui num futuro. Não sei se próximo ou não mas em algum futuro.

Vamos todos! Quem sabe o mundo não fica um lugar melhor? E com mais terapeutas cheios da grana?

ps.: no próximo capítulo da “saga da terapia” vai vir algo sobre pais e filhos (e não, isso não é uma homenagem ao Renato Russo… até porque, eca, Renato Russo sucks!)

Dona Diris e a dentadura em “Ih, cadê minha dentadura?”

e Dona Diris continua rendendo.

Quebra tudo!

Tem algumas coisas que vão quebrando os nossos espíritos juvenis e lúdicos, não? Lembrei disso vendo um especial de Natal de uma série ruim. As minhas:

1. Eu nem acreditava muito em Papai Noel mas a certeza que ele não é porra nenhuma de verdade é sempre um momento de descoberta na vida de uma criança, eu acho. Mas talvez pra mim o que mais foi duro foi perceber que meus brinquedos não se mexiam quando eu virava as costas, como em Toy Story (maldito seja você, John Lassater!). Eu queria que os meus X-Mens e os milhões de super-heróis criassem vida. Coisa que obviamente nunca aconteceu.

Uma outra menção honrosa fica pra quando eu pensei que eu conseguiria ensinar meu cachorro a rolar no chão, como eles fazem em Beethoven. Como se fosse fácil ensinar um fox paulistinha meio viralata ficando rolando que nem um idiota no chão. Ele não aprendeu e eu nunca mais rolei no chão por ninguém.

2. Meu pai é professor e eu sempre estudei na escola onde ele dava aula. Não sei porque razão ele nunca me falou que eu tinha benefícios por ser filho dele na escola onde ele lecionava. Assim sendo, passei boa parte da minha infância pensando que eu era um cara comum, quando na verdade obviamente eu não pagava mensalidade, nem apostilas, pagava ridicularmente barato os uniformes e os passeios saiam na faixa.

Todo mundo sabia disso menos eu. E por incrível que pareça existiam pessoas que tinham birrinha com pessoas como eu, pobres mortais filhos de professores. Porra, que culpa eu tenho?

Quando eu descobri isso foi um choque. A fé na humanidade, que todos éramos iguais perante todo mundo, foi um pouco por água abaixo, não vou mentir. Depois de anos sentei com meu pai pra fazer um cálcula vagabundo de quanto dinheiro ele economizou com essa história e eu vou dizer que filhos dão custos e trabalho, minha gente. Se você for professor(a), não hesite, mete a cria na sua escola. Mas por favor, conta logo que ele é especial e não paga nada, ok?

3. Atum, cara. Quem nunca abriu a dispensa de casa e só encontrou aquela lata solitária de atum? Coqueiro era a marca preferida aqui em casa.

Eu sempre pensei que atuns eram peixinhos simpáticos e pequenos, como sardinhas, sei lá. Tudo mudou quando a Discovery Channel passou a fazer parte do mundo.

Atuns não são simpáticos e pequenos e bonitos. Pelo contrário. São peixes enormes, feios e toscos. Mas o tamanho é realmente impressionante. Eu pensava que naquela lata tinha sei lá, um ou dois peixes, mas não! Um atum sozinho deve fazer uma centena de latas facilmente. Bicho grande da porra.

Nunca gostei muito de peixes como bichos de estimação mas descobrir que aquela lata era basicamente carne de um monstro gigante foi um golpe duro e eu ainda defendo que pelo bem da informação em todas as latas de atum deveria vir um croque em escala de um atum perto de uma pessoa, assim todo mundo saberia com que estão lidando.

E foi assim meu espírito infantil foi quebrado. Ihuuuu!

ar.ro.gân.cia

ar.ro.gan.te
adj m+f (lat arrogante) 1 Altivo, insolente, soberbo. 2 Brioso, corajoso, intrépido, valente. 3 Airoso, galhardo, majestoso.

Arrogante geralmente é entendido como uma ofensa pra quase todo mundo. Pras pesssoas arrogância é um defeito dos mais graves e não uma qualidade que é mal interpretada.

Como o Michaelis ai em cima pode bem mostrar, arrogância não é só sinônimo de coisas ruins (não vou mentir que fui conferir o significado de algumas dessas palavras, que nunca tinha ouvido falar na vida, mas ok, isso não vem ao caso) mas também de certas qualidades que muita gente consideraria indispensáveis a qualquer pessoa que se preze.

Dito isso, somos todos arrogantes de uma maneira ou de outra, não?

Cada um sabe aonde, quando e como rende mais. No trabalho ou em qualquer outra parte da vida. E saber disso e agir em cima disso não te torna uma pessoa ruim ou pior do que qualquer outra. Existem arrogantes e existem idiotas. Ainda acho que a maioria das pessoas não sabe diferenciar um do outro, embora existam (e em grande número) os arrogantes idiotas. Mas boto fé nas minhas próprias estatísticas, segundo as quais o número de idiotas ultrapassa qualquer outra categorização individual existente ou que será inventada em algum e qualquer futuro próximo. Para comprovar isso é só olhar pro seu lado. Se não tiver nenhum imbecil do seu lado é porque: 1. você está sozinho ou 2. você tem sorte, muita sorte.

Conheço pessoas bem arrogantes e que não são más nem idiotas por isso. São só pessoas que sabem da sua capacidade e sabem dela comparada com a das outras pessoas, razão pela qual a soberba se torna mais clara e óbvia. Ninguém é melhor pessoa que ninguém. Mas alguns são melhores em algumas coisas que outras. Ué, a vida é assim. Get over it, sabe?

Como diz aquele chavão tosco, o primeiro passo é admitir. Assumir sua própria arrogância é um passo importante para uma melhor compreensão das relações. E como todo mundo sabe, a dinâmica das relações é tudo nessa vida. Porque os arrogantes sabem os limites de si mesmos. Sabem dizer chega quando essa hora está na porta. Saber como fazer melhor mas também saber quando alguém pode te ensinar alguma coisa.

O problema disso tudo são as expectativas que esse saber traz junto. Expectativas que somente um idiota poderia pensar que serão um dia completadas.

Aflição # 1

Temer o que nessa vida?

Cachorros? Não. Eles são fofinhos.

Aranhas? Não. Elas só jogam teias, cara. Se o Homem-Aranha é legal porque não vou ser simpático com essas criaturinhas de 8 patas?

Avião? Poxa, eles só são pássaros feitos de metal.

Morte? Bom, não dá pra não morrer, então apenas tenho que aprender a lidar com isso (embora ainda não tenha, mas ok).

A coisa que amedronta de verdade chama-se fracasso.

Pode parecer coisa de criança mimada, o que talvez seja mesmo, mas saber que não rola mais a desculpa da faculdade, do TCC interminável, do estágio que não te leva a lugar nenhum e dos projetos que você nunca faz, assusta de leve. Pensar que o fracasso faz parte da vida é osso. Que ele está a espreita e tudo o mais. Conheço pessoas que já querem agora ser mini adultos completos e tal. Eu não quero isso. Não acho que esteja na idade pra isso, afinal não inventei o Windows nem vou revolucionar a indústria então ainda falta tempo para que consiga me bastar em todos os sentidos possíveis e imagináveis. Mas também não rola tanto tempo assim talvez.

Essa é muito uma aflição antiga, ela existe desde sempre, desde quando queria ser um jogador de futebol (ok, é idiota, mas poxa, me deixa). Imaginava que poderia ser muito um cara ruim que viveria pulando de time em time e nunca seria porra nenhuma? Depois eu não quis ser mais nada na vida. Médico? Not. Advogado? Not. Engenheiro? Not (essa vibe veio depois da faculdade). Poxa, não vou ser nada? eu cheguei a pensar. Quando vi que pensava mais tempo imaginando coisas e situações, me dei conta que devia fazer alguma coisa nessa direção. Pode ter sido uma escolha bizarra? Não vou mentir, mas ok, cá estamos, uma formação nas mãos e sem ideia de como as coisas vão se desenrolar.

Tem pessoas que curtem esse friozinho na barriga e tal, das mil possibilidades a trilhar e tal. Eu admito que não curto tanto isso não. Gosto dos caminhos previamente planejados e tal. Mas isso não existe no momento. Daí o revival do fracasso que vem à mente.

Poderia cair no pensamento de que esse tipo de bad trip só rola porque vivemos em uma sociedade competitiva e capitalista, então se não me sinto produtivo de alguma forma não me sinto completo. Mas de que isso me adiantaria? Seria só um pensamento estúpido. Como muitos que o tempo livre nos fazem ter. Tipo esse aqui que você está lendo.

Enfim…

o queijo

meu pai entrou há um tempo na vibe de estudar a história de são paulo. Começou juntando umas fotografias, comprou uns livros, foi até a estação de trem de Paranapiacaba algumas vezes. Contava pra todo mundo, estudava. Depois, trouxe pra São Paulo mesmo, nos finais de semana em que não iam pra Ibiúna, escolhia um programa desses de turismo revival aqui em São Paulo.  Duas semanas atrás, tava lá no mosteiro de São Bento, que abriu umas áreas meio secretas para visitação.

eu, parte terapia, acabo nunca indo, embora ache que devesse.

Nessa semana do queijo, ele foi ao mercado municipal com minha mãe, minha vó e meu irmão. Deram um rolê gigante, comeram por lá, ficaram estressados com a fila das barracas e me ligaram pra saber se queria comida. Meu pai fez duas compras principais: um pacote de castanhas de caju, que ele adora, e um queijo gigante. Sabe aquelas peças enormes, pesadas e caras que ficam junto com os acepipes no bar? Você arranca um pedaço por cima, quase cavando. Trouxe todo feliz o queijo fedorento, já com a “tampa” aberta e até uma cordinha instalada pra facilitar a abertura. Tava mó animado com o queijo, que virou gozação. Meu irmão pegou a faca pra escrever a data (estamos confiantes que vai demorar pra acabar) e minha mãe fez piadinhas com o preço. É tipo a lixeira milionária que ele comprou e depois desistiu.

fato é que o queijo tá lá perto da área de serviço, do lado da geladeira, fedendo e rendendo piada. Mas é mó gostoso.

Do outro lado da cozinha fica a máquina de café. Eles acabaram de comprar mais cápsulas de nespresso. Meu pai foi até a loja pela primeira vez, e se atrapalhou lá entre os vários blends disponíveis, sem saber direito o que gosta. Meu irmão ficou se gabando que salvou a compra, porque só ele sabia o cpf da minha mãe para resgatar o cadastro. “Pra que cadastro, se eles não me dão nenhum benefício?””a livraria cultura pede cadastro, mas me dão descontos a cada 100 reais que gasto”. Trouxeram blends variados, um pouco de cada. Estabelecemos que vamos, a partir de agora, deixar um caderninho do lado da máquina de café para registrar as impressões de cada um e descobrir do que a gente gosta mais.

Eu, que sempre gostei mais de coca cola, já disse que prefiro os mais torrados. mas vou continuar anotando no caderninho.

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eu e a bruna andamos conversando sobre queijo por email.

mudei um pouco o que escrevi e trouxe pra cá.

E eles dizem: fala alguma coisa!

Arrumação de quarto é sempre um tempo de redescobrir, não? 5 sacos de lixo em mãos, subi na escada, tirei todas as caixas e sacolas de cima do armário, aquele limbo onde jogo tudo que não estou usando no momento e sempre acho que vou arrumar “semana que vem”. Encontrei coisas de 3 anos atrás? Não vou mentir.

Máquina fotográfica pra cá, sacos de areia pra lá (sim, sacos de areia… não faço nada relacionado com areia, mas estava lá), me deparo com uma grande caixa cheia de cartas. Cartas, cara. Escritas a mão e tudo o mais. A nostalgia bateu e peguei umas pra reler. Eram cartas de sei lá, da 8ª série ou do 1º colegial. Ou seja, lá se vão 8 ou 9 anos nisso ai. Não parecia tanto tempo assim.

Peguei uma de uma amiga que tinha acabado de entrar no colégio, a gente tava ainda naquele período de se conhecer e tal. O curioso é que ela escrevia: “poxa, cara, eu sei que você me falou pra eu não me preocupar com você quando está quieto e cabisbaixo, que é só você do jeito que é e tal, mas acho que isso não te faz bem…”.

Ri sozinho por um tempo, sentado de pijama no meu quarto em meio a uma infinidade de lixo e papel. Não lembrava dessas paradas. Eu sempre fui o cara que fica quieto pensando sozinho, mas não lembrava de isso ser notado com tanta frequência e desde sempre.

Numa análise crítica da minha pessoa (com a ajuda do “viro-o-Freud-quando-fico-bêbado” Lucas Fiacadori), ficar quieto poderia ser uma manifestação de querer chamar atenção. Quietas algumas pessoas chamam mais atenção do que falando. Isso de fato é possível de ocorrer, mas não concordo que seja uma coisa racional, do tipo “vou ficar sem falar nada só pra ver no que rola”. Os fluxos de pensamento pra mim não rolam em um multitasking corrido, foi mal. Quieto consigo pensar e entender as coisas com mais clareza. Só que o meu quieto é sem falar uma palavra.

Muitas pessoas confundem isso com braveza ou mágoa ou qualquer outra coisa, mas não, é só eu pensando no mundo ou tentando ligar os pontos das relações.

A questão disso tudo é que as pessoas ao meu redor são falantes por natureza, então geralmente eu sou o alvo das perguntas “mas está tudo bem?” ou “o que você tem?”. Num meio de pessoas loucas por falar, o quieto serei sempre eu, mesmo que eu esteja nos meus dias falantes, que são poucos, por sinal.

A nova situação do momento é estar do outro lado dessa parada, não ser o que fica calado. Sentar em uma mesa e não ser o único que não fala nada porque está pensando ou tentando ligar os milhares de possíveis pontos formadores das milhares de possíveis imagens naquela situação em particular.

É curioso de certa forma. Entendo um pouco agora as pessoas que perguntam se estou bravo ou magoado. Mas entendo muito mais que o silêncio se faz mais necessário que o falar. Simples assim.