Author Archives: Lucas Melo

Temos um telefonema. alô?

Fixo. Um net fone. Celular. Acabei de baixar o skype, mais para teste.

Eles estão entre nós, já era. Mas ô aparelho do diabo. Nunca fui grande fã dos telefones, não sei se consigo explicar o porquê. Uso com certa frequência até, por pouco tempo, naquele esquema “tô saindo”, “pode descer”, “qual é o número mesmo?”, “deu certo a parada?” e só. Conversas longas são raras, mas até que aparecem vez ou outra. Meu maior problema é com a burocracia. Sabe aquela história de atender ligação que não é pra você? Ou ter que dar oi, descobrir quem está falando, fazer umas piadinhas pra enfim perceber que não sei quem tá no banho? Xô.

Nunca atendo o telefone aqui em casa, sei que não vai ser pra mim. Alguém pode achar graça em ficar papeando no random, sem assunto, com uma pessoa que você não esperava. Defendo os celulares, que deram um adianto, cortaram os intermediários e os desencontros. Quem vai me ligar, geralmente usa o número do celular, e pra eu discar o número de um telefone de casa é porque a coisa está feia. Posso desencanar também no net fone?

Foi mal tios que curtem fazer vozes, enganar e falar de futebol. Sei que, no fundo, vocês só procuram minha mãe. Ir até o telefone só para ser ser o portador das bad news não parece animador. De quebra, ainda evito os vendedores de planos incríveis do cartão de crédito e os sérios que perguntam pelo responsável pela residência. Mas não preciso encarar esse meu desapego com tanta frequência; no final, falo com pouca gente.

Os telefonemas (quem diria?) me deram muitas alegrias essas últimas semanas.

Primeiro, teve a japa falando inglês procurando qualquer pessoa do departamento de marketing. Nada como receber um “he-rô” seguindo o seu alô despretensioso

Depois, a moça que insistia que tinha discado pro sesc pompeia.

(…)
– Mas eu liguei semana passada. Preciso do sinal do fax
– desculpa, mas disse que aqui não é o sesc pompeia.
– Não, eu liguei, era esse número. é do sesc pompeia.
– mas aqui não é o sesc pompeia
(…)
– mas aqui não é o sesc pompeia
(…)
– mas aqui não é o sesc pompeia

Um cara ligou de um interiorzão de Pernambuco dizendo que era do jornal não sei blabla, estava sem internet e precisava que eu confirmasse os horários de reprises de uns programas. Errado ele não estava, mas curti a parte do “estamos sem internet”.

Fora o outro que ligou pra tv essa semana – a história não é minha – pedindo pra participar do Barraco Mtv que estava no ar. A reprise fazia parte da programação especial de aniversário, o programa tinha sido exibido faz uns 10 anos. A Soninha apresentando, o Tiago Leifert “estudante de jornalismo” e propaganda de bip motorola. Fora o visual velhão. O gênio não percebeu que era antigo, viu o número – que continua o mesmo – na tela e ligou.

“poxa, que pena que eu perdi, queria tanto falar sobre esse tema”.

decidi instalar o skype pra ver se pego mais uma ligações desse tipo também.
(e bip, cara, bip…)

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Os homens placa invadiram a cidade

Segunda-feira, feriado. Enquanto os paulistanos tomam sorvetes e admiram as ondas de Ubatuba, São Paulo é invadida. Milhares de homens placa saem de suas casas bem cedo, penduram setas indicando maravilhosos prédios em construção e se posicionam em esquinas estratégicas para apontar o caminho da felicidade, da casa dos sonhos.

Estávamos acostumados com os banners de ofertas exageradas dos prédios lindos com churrasqueira na varanda. Nos finais de semana, pipocavam essas propagandas pela cidade e era bem fácil topar com gente balançando bandeiras coloridas em frente aos estandes com “corretores no local”. Apartamentos decorados, maquetes, vendedores piadistas: era claro que nossos filhos viveriam contentes em qualquer condomínio daqueles.

Foi o Kassab aprovar a Lei Cidade Limpa para o mundo dos sonhos desmoronar. Raspar a cabeça pode? Não. Colocar placa de prédio pode? Também não. Ferrou. Os lindos imóveis estavam lá a nossa espera, mas não tinha jeito de nos avisar disso. Esperto, o senhor Tecnisa teve uma ideia: pega um mano daqueles do “compra-se ouro”, troca a placa dele, tira do centro e joga em Perdizes. Você topa, sr vende ouro? Topo, topo sim, por que não? Vamo cair pra dentro.

E agora é assim, tudo voltou ao normal, podemos novamente encontrar a morada do sonhos. E mais do que placas tristes e solitárias, agora elas são personificadas. Tipo amigos indicando o que vai ser melhor pra gente. Não há profissão mais altruísta, o cara fica ali só esperando para ajudar alguém, dar o caminho. Um pastor do mercado imobiliário.

Mas esse não é um trabalho fácil, minha gente. Virou de lado pra ver uma gostosa? Olhou pra trás porque ouviu uma buzina? Abaixou para amarrar os sapatos? Pronto, indicou a rua errada. Pelo menos dá pra ficar balançando a placa de um lado pro outro, pra fazer as 10 horas de turno passarem rapidamente.

Sério, pagar 20 reais pro mano passar a tarde segurando uma seta é brincadeira de péssimo gosto. E é claro que todos eles ficam com uma cara de merda olhando pro nada, em contraste com a oferta dos sonhos que penduram no pescoço. Imaginava morar nesse prédio tão maravilhoso que contrata gente fudida pra ganhar 20 reais e passar a tarde tomando sol com uma seta vermelha gigante na barriga? Imaginava, imaginava sim. Depois dos remédios e dos cosméticos, o peta que me perdoe, mas façamos essa maldade com os animais. Amarra o cachorro na esquina, veste uma roupinha engraçadinha com a propaganda e pronto. Deixa o homem placa ir pra Ubatuba.

Como homenagem, aqui vai uma galeria de fotos que juntei desses personagens heróicos.

o cara manja

-tô escrevendo um post lá pro blog.

Legal, efe, tá mó parado.

-É sobre morte e religião.

uau, boa, efe.

Sugestões para outros posts:
– O possível meio termo no oriente médio.
– A questão do pré-sal passada a limpo
– As merendas do Kassab
– Aborto, uma questão de saúde pública?

aguardem

(o compromisso existe. mas pode ser que agora ele fique ofendido e desista de escrever)

Belo dia para comer tortas

“Belo dia para comer tortas” pensei um pouco antes de sair do trabalho. Chovia muito. O mundo brincava de imitar o clipe de No Surprises e ia enchendo aos poucos. Um alagamento na marginal, carros boiando, árvores caindo…. belo dia para comer tortas. Mudei de ideia. Virou um belo dia para comer no McDonalds. E o raciocínio foi simples: as tortas viraram cinema, o horário da sessão obrigou um lanche rápido, pronto, McDonalds. Como diria o Efe (e o Evandro Mesquita) “ok, você venceu, batatas fritas”.

Cheguei no Mc e dei de cara com um cronômetro regressivo: se não entregarmos seu pedido em 60 segundos, você ganha um Big Mac. Em cima, um botão vermelho, estilo passa ou repassa. Já vi que seria divertido, espírito de competição é o que liga. “vai, pede alguma coisa que eles não têm pronto” Não, maldade demais, vou ver o que tô com vontade. Bacon, isso, me vê esse de bacon! Posso apertar o botão? Não, calma, eu preciso registrar o pedido. Sua senha. Pronto, pode apertar. E aí faltou o Gugu aparecer atrás do balcão e mandar o valenduuuuuu.

60, 59, 58….

correria

Deu pra ver que o bacon foi a pedida certa. Ou errada.

55, 46, 34… caras de desespero

É, não vai dar. Como assim? Ainda faltam 30 segundos! É, mas não vai dar.

Foi levar na ponta dos dedos, como diria Galvão, até o cronômetro zerar e emitir a sirene da vitória.

Iuhuuu. Vem, Vem, Vem, Big Mac, Vem! Toma essa, McDonalds, eu te deixei em ruínas, cara. A máquina do capitalismo estava agonizando à minha frente.

Foi quando percebi que minha dancinha de comemoração parecia inapropriada. Não eram os arcos dourados que definhavam, era a atendente, triste por perder a competiçãozinha escrota contra o relógio. Pior que isso, tava na cara que a culpa era da cozinha, não dela. Fiquei mais sério. Ela e sua ajudante preparavam o resto do lanche e separavam o Big Mac de prêmio. Fiz umas piadinhas, mas tava na cara que aquilo não era tão legal.

Pobres atendentes do McDonalds, que precisam vestir boné, camisa, calça, cinto E tênis de uniforme. Que têm que ficar naquele calor e receber clientes devolvendo suas cocas “com gosto horrível, que não dá nem pra tomar”. E que sentem aquele cheiro bom o dia todo, até ficar insuportável. Agora eles ainda devem encarar essa brincadeirinha estilo passa ou repassa. Que fase, amigo. E eu ainda comemorei o Big Mac. Rá, funcionária ineficiente, perdeu! O próximo desafio vai envolver cuspe na cara dos funcionários, tenho certeza.

E eu saio feliz da vida porque, graças à falta de competência, ganhei um lanche. de grátis.

E ela fica lá, se lamentando. Tentando ser melhor pro próximo cliente.

Amando muito tudo isso.

weee are the champions, my friend

Meu primo se formou.

Semanas depois da apresentação do tcc, veio a colação de grau pra oficializar o fim do ensino superior. E já começa chata por aí, cerimônia e oficial são palavras que fazem passar o filme do brega na cabeça de qualquer um. E o filme do tédio também. E o do brega X tédio (no final, eles percebem que seu destino é permanecerem juntos).

Lá fui eu, clube chique, Ibirapuera, engravatados, roupinhas de formando, decoração medonha com panos coloridos, flores e tapete vermelho. Lindos cenários para fotografias no fundo do salão.

Entrei, sentei na cadeirinha de plástico-festa-de-formatura com paninho-colorido-de-formatura por cima para disfarçar. A música bombava. Lá na frente, uma mina toda arrumada e um mano igual ao Maradona cantavam só clássicos. Vanessa da Mata aqui, O Rappa ali. No início da coisa toda, uma música religiosa para… não sei pra que. Depois abraçaram de novo a Ivete Sangalo e mandaram ver. Eles e aquele mestre de cerimônias que era louco para falar bonito, emocionar parentes e tornar o momento único.

Careta.

Mas quem vai numa colação de grau e espera um evento interessante, né? Tá certo que é mó desperdício, ainda mais contando que os formandos eram todos de cursos de artes, mas imprevisível nunca foi. O problema é que, não sei por onde começou, mas forma e conteúdo são exagerados, frescos e cobertos por uma pompa podre. Pobres garotos e garotas formandos respiram esse maldito ar solene e começam a se comportar como seus avós terminando a escola de engenharia. Ou bisávos. Ou direito.

Sério, maldição. Pra que aquela história de “foi muito difícil conseguir (…) tantas noites mal dormidas (…) apoio dos colegas (…) conhecimento que vamos usar a vida toda (…)”. Pô, primeiro que a faculdade não é senhora do conhecimento. Depois, tão difícil assim? Noites mal dormidas? Bebedeiras, trabalhos nas coxas, faltas, e a arte de enrolar professores ninguém lembra. Sem desmerecer o feito, que realmente tá lá, mas pega esse diploma, coloca embaixo do braço e vamo aí.

Coroa.

Ponto alto da história é a participação de uma vovozinha simpática, escolhida para ser homenageada. Não entendi direito o porquê, mas tiraram a velhinha sorridente do seu lugar e mandaram a coitada pegar flores lá na frente. Bem do lado do Maradona. Emocionada? Feliz pelo neto? Diz aí, vovó: “Ai, meu deus, olha o que vocês aprontaram comigo”.

No tapete vermelho, caminho de volta: “Socorro. Me salvem!”. Ela via a palhaçada.

E a plateia aplaudia com os olhos marejados a vovó e o buquê caminhando até sua cadeira branca.

Agradecimento do professor blablabla-principal-eu-sou-foda. Champagne no palco. Sobe música. Chapeuzinhos pra cima.

Na saída, consegui tirar minhas últimas fotos pra aproveitar o cenário bonito. E vazei prum jantar delicioso.

Esquina, paranoia delirante

Esses dias resolvi cumprir uma das missões que deveriam ser rotina, mas não são. Se moro do lado do trabalho, por que não sair mais cedo e ir a pé? Convicção de que esse é o certo não me falta, assim como também sobra a preguiça, o atraso e mil outros motivos bestas. Nesse dia, fui bancar o coerente e deixei o carro na garagem. Subidinha até o trabalho, 15 minutos, beleza. No caminho de volta, a paranoia era maior. Sei lá, desde os tempos do colégio ativei o modo “atenção para não ser assaltado” sempre que ando por aí. Dá certo? Nem sempre. Já “perdi, playboy” umas vezinhas. Ainda assim, vou rápido e olhando pra tudo que é lado. Engraçado é que na fúria do ver tudo, você tem certeza que também está sendo observado e que pessoas conversam sobre você. Basta estar acompanhado para perceber que o mundo tem mais o que fazer e nem te nota. Sozinho, não. Enquanto tava lá falando comigo mesmo, fazendo os planos de melhor caminho e analisando tudo e todos, ultrapassei uma galera que andava calmamente pelo bairro. Só essa aí que não rolou.
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Ela apareceu na minha frente ainda longe de casa. Como com os outros, tentei acelerar, dar um passo pra esquerda e mandar um “fui!”. Não rolou. Apertei o passo, ela também. Se existe o código de conduta dos motoqueiros, existe também o código de conduta das ruas. Não era coincidência, ela claramente evitava a minha aproximação. É ruim andar com alguém por perto, principalmente fazendo o mesmo caminho que você. Cheguei próximo, ela fugiu, tipo um rato condicionado. Ok, estávamos andando rápido, ela não parecia ameaçadora, fiquei atrás. Seu trajeto era o mesmo da minha casa. Se ela entrou numa de prestar atenção em mim e acelerar o passo, mal sabia que era ainda pior. Não só estava pensando nela, como tirava fotos. Jogo de paranoias. Ou a minha paranoia projetando uma paranoia nela.

Quase aqui no prédio, e já na certeza que tinha gente na rua percebendo que eu tirava fotos da mina, ela virou. Faltava um quarteirão. Virou. Talvez tenha mudado de direção só pra ver se eu estava seguindo. Ou a casa dela era pra direita mesmo. De um jeito ou de outro, quando passei reto no cruzamento, ficou aliviada. Deve ter se sentido besta. “O mundo tem mais o que fazer e nem me nota”.
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Nós estamos certos, cara. Eles estão nos vigiando. Fotos em anexo.

A maldição de nomear.

Bráulios, Floras, Pieras, Lailas e Mários que sofram com as piadas e explicações que devem o tempo todo por exibir por aí um nome desses. Já Lucas, olha só, não tem versão feminina, o que é um adianto quando você está no colégio, não tem plural, não rima com nada vergonhoso e todo mundo entende de primeira. Se bem que, com minha dicção não tão excelente, de tempos em tempos escuto um “o que, Douglas?”. Isso esquecendo os dias em que minha voz oscilava mais do que hoje e de vez em quando rolava um “o que, Lúcia?”. Osso. Mas, no geral, o nome Lucas foi só alegrias.

Essas questões, claro, são tudo o que as mães e os pais não pensam enquanto passeiam pelo livros dos nomes. Por experiência de vida, posso dizer que lá em 1987, Lucas bombava. Todo bebê tinha cara bíblica de Lucas. Resultado disso é atravessar a escola como Lucas Melo, pra diferenciar dos outros 15 que estavam na mesma sala (o carma segue aqui no blog). Tudo bem, nenhum problema. Parece que rola mesmo essa história de tendência de nomes, que alterna os Washingtons, Pedros Ricardos e Júllias Anas Claras com Pedros, Anas e Joãos. Se dei bem.

Pobre é aquela companhia de telefonia AEIOU. E seu brilhante simulador de gastos FALAMAISÔMETRO. Ou a empresa de aviação que fez um concurso para eleger o seu nome – nada como jogar o trampo na mão dos outros – e adotou AZUL, vencedor do embate final com SAMBA, a outra opção. O programa de créditos é o Tudo Azul, em mais uma sacada de criatividade. Se pais, com o carinho que têm pelos filhos, já criam as aberrações que encontramos por aí, o que esperar da galera dando nomes aos projetos, filmes e empresas que colocam no mundo?

Voltando ao assunto TCC, que de vez em quando dá o ar da graça aqui no blog, seria muito bom decidir logo um nome da coisa.  Palavras em inglês, trocadalhos, citações, trechos de música, compilação aleatória de letras, escolha da audiência. Rodo, rodo e não chego a lugar algum. Difícil. Não quero ser pai de Mário, Laila, Piera, Flora ou Bráulio. Nem a pau.