Bando de louco

Eu sempre curto uma preguiça. Mas aí fiquei com preguiça de curtir a preguiça e resolvi me mexer, na última quarta-feira. Não foi uma mudança drástica, tipo começar o TCC. Mas tomei coragem de encarar a fila no Pacaembu, no sol, e comprar um ingresso pra ver o jogo do Corinthians. Sabe como é, Roberto Carlos, Ronaldo, Elias, Fiel Torcida e tudo que engloba o time do povo. Antes que você se pergunte, não, não é exatamente um post exaltando meu time do coração. E que não se preocupem os que detestam o futebol — não quero discutir esquemas táticos, embora tenha algumas coisas pra falar a respeito disso.

O negócio começa exatamente por vocês que não gostam de futebol. Ou pelo  próprio gostar de futebol. Torcer, gritar, sofrer, chorar. Porque, apesar de inúmeras vezes refletir e discutir com os brothers sobre isso, não entendo o que faz pessoas como eu e muitos outros terem a vida afetada por isso. E não é só afetada, é transformada realmente. Gastei um monte de tempo e dinheiro, fiquei no sol, demorei na fila, peguei uma chuva absurda durante o jogo e, mesmo assim, saí mais feliz. E é assim com muitos. Tem gente que vive pra isso, que viaja a cada jogo. Há quem diga que é um bando de desocupados, que é gente que não faz nada da vida, mas eu prefiro olhar com outros olhos. O que será que tem de tão importante no futebol que faz alguém deixar de viver a vida para si mesmo e dedicá-la a um clube? Como diz o hino do Grêmio Foot-ball Porto Alegrense, “até a pé nós iremos para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”. É essa sina, essa devoção que eu não consigo entender, mas consigo sentir. Claro, não sou um torcedor tão fiel como tantos outros. Mas confesso que gostaria.

Meu pai não gosta de futebol. Tem as pernas tortas, como Garrincha, mas sua habilidade é inversamente proporcional à de Mané. É aquele torcedor que se diz palmeirense, mas que “fica feliz por mim” — como diz — quando o Coringão leva a melhor no embate entre os dois. Meu tio, pelo contrário, sempre foi um bom jogador, e, proporcionalmente, um bom torcedor. Sempre me levou aos jogos. Desde quando eu era um pequeno Louco-por-ti-Corinthians. Lembro de ir ver um Corinthians e Grêmio pela Copa São Paulo de Futebol Junior e sair do Pacaembu no meio da multidão sentado sobre seus ombros. Lembro de ver um Corinthians e Goiás em um dia qualquer de semana. 1×1. Gol de Neto, de falta. Nesse dia, aprendi a mentalizar. Ele me disse: “Mentaliza. Vai ser gol. Enxerga a bola entrando.” Acho que não fiz direito. Neto bateu e foi na barreira. Mas o destino insistiu e o juizão mandou voltar a cobrança. Nova chance pra mim e… Gol! Mentalizei. Vi a bola entrando, no ângulo. O gordinho colocou a bola naquele mesmo ângulo, exatamente como previ. Lembro também de pular a catraca num jogo sob chuva forte. Um cara me ajudou. Meu tio me passou por cima e o cara me pegou do outro lado. Essa brodagem é característica de estádio. O abraço com desconhecidos na hora do gol aproxima aqueles que estão unidos pela mesma paixão. Já rolei a arquibancada, num princípio de confusão. Lembro da minha camisa de porta do estádio, tosca, de algodão. Ganhei do meu tio com três anos de idade. Era da Kalunga. Uma estrela só em cima do distintivo alvinegro. Lembro  como veio a segunda estrela: os gols de Marcelinho e Edílson, com passes de Dinei — o talismã da Fiel — marcados na meta da qual eu estava atrás, na numerada do Morumbi, em 23 de dezembro de 98. O Corinthians vencia o Cruzeiro e virava bicampeão brasileiro. “Fica Luxemburgo, você vai ser campeão do mundo”, gritava a Fiel em festa. Na saída, quase não pisava o chão. Flutuava em meio à massa alegre que deixava o palco. Nesse momento, graduava-me em Corinthianismo. Voltava feliz ouvindo o replay dos gols no Rádio AM no Uno do meu tio. A voz de Silvério, distorcida pela interferência do motor do carro, gritava emocionada o nome do Corinthians e me enchia de orgulho e êxtase. Pude ver, nos próximos anos, muitos outros títulos. O campeonato Mundial sobre o Vasco, xingando o Luciano do Valle, que parecia a nós — eu e meu tio — um agourador do nosso título por vir. Chupa Edmundo.

Também chorei muito pelo Timão. Começando por 93 — o Paulistão para o Palmeiras. Minha mãe pegou uma camista branca e escreveu alguma coisa que não lembro, mas era algo incentivando o Timão antes do jogo e que me deixava feliz, no auge dos meus 5 anos de idade. Eu não entendia exatamente o que acontecia. Não sabia o que era prorrogação. Mas tirava onda com o gol do Viola e a imitação do porco na comemoração, no primeiro jogo. Já xingava os Palmeirenses de porcos, fazia embate de musiquinhas de torcida com minhas primas, até então palmeirenses, mas hoje corinthianas. Chorei muito, sabia que era roubado. Expulsaram o Henrique e o Ronaldo. Meu tio estava indignado. Eu não poderia ficar outra coisa que não isso.

Assim foi nas libertadores contra o Palmeiras. Inacreditável. Sofrível. E contra o River? Já era maior, não queria chorar, xingar. Preferia tentar não me importar. Mas não dava. 2006. Naquele momento até apoiava a massa enlouquecida que tentava invadir o gramado. Coelho? Betão? Fuck.

Ainda não entendo por que razão isso é tão grande. Não vou aqui fazer menção ao quão especial é torcer para o time que eu torço, como a Fiel é diferente. Sei que, do mesmo jeito que lembro desses momentos, outros também lembram de seus times. Meus companheiros de blog, saopaulinos como são, devem ter comemorado com seus pais as libertadores e mundiais de 92 e 93. Também devem ter sofrido com a perda da final de 94 para o Vélez. Com certeza sofreram quando o Raí perdeu dois pênaltis contra o Dida, em 99. E a tetra eliminação para brasileiros nas últimas Libertadores. Os palmeirenses também sorriram enquanto eu chorava. Faz parte do jogo, meu tio sempre disse. Agora ele entendeu isso, não sofre mais. Alguém perde e alguém ganha. Para ele, isso está diretamente ligado ao quanto se rouba dentro dos times. Sei lá. Não aprecio esse siso no futebol. Perde a magia. Sei que nos fazem de idiota e isso é revoltante, mas acaba com a fantasia entender o mundo desse jeito, embora a fantasia mascare os maquiavélicos ditadores. Também sei que eu e o Corinthians não temos ligação nenhuma, que se roubarem lá, eu não perco nada, teoricamente. Se ele perder, eu teoricamente continuo igual. Mas é isso que intriga. Eu me importo, eu xingo, me revolto, sorrio, sofro e comemoro. Me arrepio ao ouvir a massa. E ao fazer parte da massa. Talvez seja isso. Se enquadrar, fazer parte do grupo. Ser mais um louco no bando, louco pelo Corinthians. Naquele momento é só isso que você é. Cantar, pular, xingar. Tomar um gol e cantar mais forte, apoiando até o fim.

Mas, sinceramente, o futebol é mais do que sentir-se bem e completo, incluído socialmente. É algo que você sente como seu, mesmo que pareça ensinado. É algo que você tem orgulho sem saber bem a razão. Porque não é racional. Não é pra entender, talvez. É pra sentir. Não sabem o que perdem aqueles que veem um retângulo com 22 caras correndo atrás de uma bola e milhares de otários pagando pra olhar.

Corinthiano, maloqueiro e sofredor, Graças a Deus.

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One response to “Bando de louco

  1. Realmente, futebol mexe muito com a cabeça do torcedor. Toda vez que meu time (Coritiba) perde, já é um motivo pra eu ficar com um certo mal humor, uma certa revolta. Mas em cada vitória sinto uma felicidade incontestável. São emoções difíceis de explicar e entender, mas fáceis de sentir.

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