Tenra infância?

Minhas únicas duas memórias de infância, daquelas vívidas, que sei contar a história direito e tal, são:

– quando meu irmão, numa lutinha idiota, quebrou meu dente da frente com uma joelhada desleal, depois de eu, acidentalmente, ter quebrado os óculos dele. Assim, totalmente desnecessário esse uso de força bruta contra o irmão menor e tal, me fudeu o dente, que ok, nem era permanente ainda, mas mesmo assim. Lembro de chorar mas depois passou e tal. Depois disso nunca mais me envolvi em brincadeiras de mão, porque elas machucam, cara. E elas não levam a lugar nenhum.

– quando eu, no ápice da minha aventura futebolística pelas quadras dos torneios entre os colégios da Zona Leste da cidade me destaquei na gloriosa quadra de ladrilhos do Externato Nossa Senhora Menina (que depois viria a ser palco de um sangrento confronto entre pais de duas escolas, coisa que eu presenciei in loco) e ganhei uma camiseta como melhor jogador de um dos jogos lá.

Pronto. O resto são meros fragmentos de coisas. Não lembro de jogar videogame, não lembro das pessoas direito, é tudo embaçado, como se uma névoa bizarra e escrota tivesse tomado conta da minha memória. Sempre tem uns períodos que eu fico pensando nisso, no fato de não lembrar das coisas. E isso sempre tende a cair pra um de dois lados:

1. Eu to encanando com uma coisa imbecil (grande probabilidade) e que as pessoas que lembram com detalhes vívidos de quando comeram mingau pela primeira vez sentados num cadeirão na cozinha da avó que tinha cheiro de desinfetante são a minoria da minoria da minoria e que a maioria não lembra de merda nenhuma mesmo porque tudo aquilo não importa, são só fatos da sua história nessa parada que chamamos de vida. Não são grandes acontecimentos que te formaram como o ser delicado e simpático que é hoje e sim só a primeira vez que sua mãe, cansada de te dar papinha de maça com mamão, te deu mingau. Simples assim.

2. Aconteceu alguma coisa muito ruim comigo e eu não lembro. Alguém me molestou. Alguém me colocou de cara na privada. Alguém me esqueceu dentro do carro por 12 horas e eu quase morri de calor. Alguém sei lá, fez algo assombroso e tenebroso, que me marcou para sempre e eu tive um bloqueio de memória. Eu nunca pensei que isso existia, que a mente fosse capaz de algo assim, sempre achei frescura, mas sei lá, vi acontecer, então porque isso não pode ter acontecido comigo antes? Nos meus tenros anos? Sei lá, vai saber.

Mas na real mesmo, eu não acho que fui molestado, nem que mingau pela primeira vez não é importante. Eu só não lembro das coisas. Eu não lembro do meu 1º colegial quase que inteiro e isso não faz nem 7 anos, sei lá. Acho que eu tinha coisas mais importantes pra lembrar naquela época.

Não fico super triste de não lembrar da minha infância, mas é que só tenho a impressão que poderia ter boas histórias ali em algum lugar. Mas ok, fica pra próxima. Eu posso sempre inventar umas pra cativar as pessoas. Tipo quando meu irmão foi atropelado por um trenzinho. Opa, pera ai, essa história já tem dono. Fuck…

Advertisements

7 responses to “Tenra infância?

  1. Em minha defesa: A joelhada foi um acidente.

    Caso encerrado.

    [ ]s
    Rodrigo

  2. Uma das coisas que mais me perturba, é não lembrar do exato momento em que eu passei a lembrar das coisas. Qual é o meu primeiro momento memorizado? A partir de quando eu passei a pensar?

  3. Eu te entendo, cara, sofro da mesma coisa! Não esqueço de tudo, mas já cansei de ouvir histórias da época da escola, por exemplo, que não lembrava. Sei lá, pode ser o consumo de álcool que faz isso, rsrs…

  4. cara, fiquei pensando em milhares de coisas com esse post, mas vou deixar pra falar só o seguinte…

    acho que lembramos das coisas que nos deixam marcas importantes para a contituição da nossa subjetividade (mesmo sendo essas apenas construções da nossa mente infantil), então possivelmente você lembra de coisas que são significativas para algum aspecto da sua personalidade e sei lá…

    outra coisa é que eu fiquei pensando é que com a fluidez das relações as coisas devem deixar marcas menos significativas em nossa vida (toda a questão dos laços que formamos com o mundo)…

    enfim, tudo isso pode ser só uma grande viagem que com certeza é interessante de se discutir, mas o essencial é: blame it on the pós-modernidade! hehe…

  5. no. you can put the blame on me. Baby, you can put the blame on me.

  6. Minha infância se resume em “era uma vez uma bailarina super legal”
    Eu como mingau até hj! Eba
    Concordo com a Bel e a pós-modernidade!rs

  7. “Depois disso nunca mais me envolvi em brincadeiras de mão, porque elas machucam, cara. E elas não levam a lugar nenhum.”

    gêêêêêêênio! hahuahua mto bom

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s