É um disco riscado, meu filho

A gente não tem lá muito assunto. Melhor dizer, tem, mas tá em falta (parafraseando um vendedor daqueles mercadinhos que vendem de tudo, quando você o surpreende com um item exótico). Porque mesmo podendo conversar sobre guardachuvas e formigas alienígenas em propaganda de desodorante, gostamos de nos manter na mesma tecla. O caso clássico é do papo entre “conhecidos”, quando não dá pra encontrar um começo de conversa, qualquer que seja. Sempre rola, porém, a carta na manga, muitas vezes usada logo de primeira, um assunto que é certeza que dá certo. Se conhece fulano via ciclana, pergunte dela. E os seus irmão, estão bem? E esse São Paulo, hein? Ou então repetir uma piadinha recorrente, apresentando ao público ao redor a cena que vocês já ensaiaram por diversas vezes. Depois dela, provavelmente já é tempo de ir embora. Se não for, o problema aumenta, porque é caso de esticar a baboseira para um espaço ainda maior.

Se procurarmos direito no histórico das nossas conversas, dá pra notar que a repetição de um tema não é exclusividade dos “conhecidos”. Não sei se é só comigo, que planejo, escolho, decido e nunca faço nada, mas velhas histórias rondam a vida. “Tal pessoa é escrota”, olha o perfil no orkut, nossa, saca só como ela escreveu dessepção, e essas fotos bancando a gostosa? Pronto. Na semana seguinte, lá estão os dois falando de novo do último erro de português bizarro, da mais nova pose “sou tigrona” e da mais recente prova para defender o ponto de vista que já foi discutido um milhão de vezes. Apresentando a ceninha ensaiada de novo, com ou sem plateia pra assistir.

Repertório, cara, é tudo uma questão de repertório, diria um. Não acho que seja. Parece que gostamos de verdade de nos manter nas mesmas conversas. Pro “conhecido”, não vale buscar referências distantes para iniciar o assunto, até porque pode ser muito difícil saber por onde começar. E, para aquela conversa rápida, inventar moda pra que? Vamos no seguro e pronto. Com gente mais próxima, você usa seu repertório em outras ocasiões, mas ainda assim pode ser divertido repetir aquele tema. Ou talvez ele seja tão óbvio que vire recorrente, tipo a história do “poxa, preciso terminar meu tcc” (e a discussão não é sobre o tcc, e sim sobre o fato de precisar fazer um tcc).

Como se não bastasse associar pessoas com temas de conversas, ainda é natural, de um jeito bem egoísta, forçar determinados assuntos com todos ao seu redor. Sabe quando você fica numa dúvida qualquer ou vê alguma coisa muito interessante e fica com vontade de falar sobre aquilo? Não importa,  mesmo que a descoberta seja sobre a nova tecnologia usada em carros de fórmula 1, você encontra uma maneira de fazer  a conversa sobre gatos obesos chegar, em uma ou duas etapas, aonde você quer. E, de repente, a história da fórmula 1 passa a fazer sentido comparada a tudo e pode, portanto, ser usada como exemplo para qualquer coisa, mesmo que não sirva. Então, em uma semana você percebe que o negócio não é mais falar dela e sim do fenômeno da volta dos grandes jogadores de futebol ao Brasil. Logo esse é o tema que pode ser colocado em qualquer mesa de bar. Dó ou Fá bemol, o esquema é repetir a mesma tecla.

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One response to “É um disco riscado, meu filho

  1. acho engraçado imaginar que um dia vc parou pra pensar em tudo isso e passou um tempo escrevendo sobre o assunto.

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