Casa nova, de novo.

Meus pais não são militares, nem estão fugindo da polícia. Nunca foram traficantes nem venderam máquinas caça-níqueis. Não são boleiros profissionais, muito menos técnicos de futebol. Nem meu pai nem minha mãe, ou qualquer outro que já morou na minha casa, está no programa de proteção às testemunhas. Acho. Esse é o tipo de pessoa que precisa ficar mudando de casa o tempo todo e já tem o know-how do encaixotamento rápido I, II, III e Avançado – saindo de casa na correria.  Embora não façamos parte de nenhum desses curiosos grupos, o know-how é cum nóis.

caixas1

Tô exagerando um pouco, e sei que não sou quem mais trocou de casa no mundo, mas até que já dei uns rolês por aí. Um predinho na lapa, casa ali perto, dois apartamentos no mesmo prédio do lado do Palmeiras, um outro na frente das quadras de tênis, sem esquecer da temporada – e três diferentes casas – em Fortaleza, casa afastada de São Paulo e… um mês num hotel em Floripa conta? Coloca tudo dentro das caixas, escreve o seu nome pra ser mais fácil de achar, identifica o que tem dentro, faz umas viagens de carro com ítens muito frágeis (inclusive os cachorros); esquece isso, esquece aquilo, não sabe onde colocou aquele outro. Chega em um lugar faltando umas luzes, cheio de tranqueiras, sem internet, telefone e tv a cabo, pede uma pizza e….talheres, onde mesmo?

Essa semana vou me mudar. Andando pelo apartamento novo, meu irmão perguntou “e aí, dá pra imaginar que essa vai ser nossa casa?”. Exatamente nisso que eu tô pirando esses dias. Comer pizza, encaixotar o cachorro e ficar sem a chave da porta por uns dias não é tão difícil assim. E, quase rotina da minha família, já vira até piada. O estranho mesmo é pisar naquele lugar novo e saber que agora é sua casa. Você ainda não sabe andar no escuro e desviar das quinas destruidoras de canelas, não tá cansado de ver as mesmas paredes do seu quarto e não tem um canto específico para jogar a carteira. Então essa aqui é minha nova base? Aqui que vou chegar e me sentir no espírito – opa, cheguei, fim do dia? Estranho ter que remodelar esses conceitos de lar num espaço físico completamente diferente. (pros participantes do extreme makeover, então, pior ainda: mesmo lugar, diferente)

cara, será que rola uma caixa maior?

Uma amiga minha tem duas casas. Pais separados, dorme uns dias com um, outros com outro, num esquema louco e metódico. Um amigo meu mora no mesmo lugar desde que nasceu. Complicado pensar que os dois têm o mesmo apego ao seu barraco. Na verdade, aposto que o apego não é igual. Só eu acho confuso ter duas casas ao invés de uma? Mas e as suas coisas tão onde? Na hora de passar o endereço, passa qual? Fico na busca da oficial, aquela casa que é mais casa que a outra casa. Duas, não é possível. E uma só pela vida inteira? Isso também é demais. Se eu queria a oficial, pode ter certeza que essa aí vai ser a linda, absuluta, stefhany das casas. Mas tenho a impressão que é bom de vez em quando a gente dar um F5 na quebrada, ter o lar tão lar assim deve ser cansativo.

Esse reload aí é que nem mudar de colégio. Por um momento, você pensa que pode se livrar das coisas que não gostava antes e inventar umas novas. Vou ter mais amigos, ninguém vai mais me chamar de surfista, vou manter as gavetas arrumadas e vou, enfim, jogar fora aqueles papéis guardados atrás da mochila velha. Claro que sempre depois você sempre volta a ser o surfista das gavetas bagunçadas. Às vezes, menos surfista e mais arrumadas. Os planos pra mudança dessa semana são: comprar um adesivo pra parede e voltar a usar um criado mudo.

Até no hotel em Floripa já estava me sentindo em casa. Certeza que, em breve, não vou ter outra impressão de casa a não ser esse apartamento pra onde vou. No fundo, a gente não pensa muito, é só nossa casa e pronto.

Advertisements

6 responses to “Casa nova, de novo.

  1. Hahahaha adoro ler oq vc escreve. Eu, teoricamente, tenho 2 casas. Uma é a minha e a outra é a do meu pai. A minha é minha, eu moro aqui sempre. A do meu pai eu moro, mas só de vez em quando. Me sinto em casa lá também, é bem confortável e gostoso, mas nada como a MINHA casa. Essa daqui, sabe? Eu não fui uma pessoa que mudou muito. Meu pai se mudou mais que eu, então eu meio que me mudei também. Mas oficialmente, não mudei muito considerando a minha casa. Ai, ta ficando complicado né? Acho que devo parar. Adorei pensar nisso de decorar sua casa no escuro e não bater as canelas nas quinas. Isso é bem verdade. Na minha casa eu faço [se bem que bato as canelas até quando ta claro] mas já na casa do meu pai, me embanano toda. Na verdade não costumo andar no escuro quando estou lá…Enfim…Boa mudança! Quero seu novo endereço. É perto da casa antiga? É perto da minha casa? Espero que agora você não esteja longe tipo no “Tamanduateí” [nomes de lugares que vemos por aí e achamos que não existem de tão longe que parecem ser] :] beijinhos!

  2. O “Tamanduateí” é perto da minha casa. ZO people vive na bolha ZO-Centro somente?

    OK, revolt off.

  3. Huahauhauahauhauahau! Sensacional, “Efê”!

  4. Agora eu entendi porque você e o Fi são tão amigos: partilham do trauma infantil “tiraram o meu chão”, nunca antes investigado por psicólogo nenhum. Preciso conversar com sua mamis, trocar com ela figurinhas de mãe-nômade culpada e, quem sabe, tomar fôlego para mais uma mudancinha… Já tô há dois anos no mesmo apê e, em 22 anos de casamento, já moramos em 13 casas, o que dá uma média de uma casa a cada, 1,6 ano. Poor Filipe, agora eu sei porque ele não gosta de Lula à Doré e tem uma entrada Midi no mamilo esquerdo. Que tal um rap pra colocar a angústia pra fora? Ah, e encaixotar o cachorro não é o pior. O pior é andar de carro com um aquário gigante cheio de água podre. Isso mesmo, aquele com a plaquinha “peixes queridos” de que você gosta.
    Continuem escrevendo meninos!
    E convide sua mãe a visitar o seu blog. A culpa dela pode te trazer boas compensações…

  5. Mano, foda é quando vc muda e as coisas do seu quarto mudam de lado. a escrivaninha vai pra onde era a cama, a cama via pra onde era a escrivaninha. A janela em outra parede, um armário diferente, quem sabe em L. Isso fode a vida.

  6. nossa, aqueles Peixes Queridos merecem mesmo um rap!
    Só o filipe plugar um teclado no seu mamilo esquerdo, soltar a base e aí as rimas vão sair.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s